<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391</id><updated>2011-04-21T14:43:16.326-07:00</updated><title type='text'>2007 01 - Machado de Assis</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>12</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-3958706816595514786</id><published>2007-04-21T06:44:00.000-07:00</published><updated>2007-04-30T15:14:42.294-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Um Homem Célebre, de Machado de Assis&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Fonte:&lt;br /&gt;ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.&lt;br /&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;br /&gt;Texto-base digitalizado por:&lt;br /&gt;Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística&lt;br /&gt;(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um Homem Célebre&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;1.&lt;/strong&gt; — AH! o SENHOR é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Desculpe meu modo, mas. .. é mesmo o senhor?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;2.&lt;/strong&gt; Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.&lt;br /&gt;— Diga, minha senhora.&lt;br /&gt;— É que nos toque agora aquela sua polca Não Bula Comigo, Nhonhô.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;3.&lt;/strong&gt; Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;4.&lt;/strong&gt; Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;5.&lt;/strong&gt; Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas aí mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a poucos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em clarineta. Dançava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôs-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. Já perto de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, começou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da peça, desesperado, corria a meter-se em casa.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;6.&lt;/strong&gt; Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear.&lt;br /&gt;— Não quero nada, bradou o Pestana: faça-me café e vá dormir.&lt;br /&gt;Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doudo por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas vadias, cousa de que se não ocupa a minha história, como ides ver.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;7.&lt;/strong&gt; Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns, gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;8.&lt;/strong&gt; Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;9.&lt;/strong&gt; Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum pensamento mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostar-se à janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;10.&lt;/strong&gt; Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia: ele corria ao piano para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vão: a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça: mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;11.&lt;/strong&gt; Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou às sete horas. Vestiu-se e almoçou.&lt;br /&gt;— Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto, segundo as ordens que tinha. porque as distrações do senhor eram freqüentes.&lt;br /&gt;— A bengala.&lt;br /&gt;— Mas parece que hoje chove.&lt;br /&gt;— Chove, repetiu Pestana maquinalmente.&lt;br /&gt;— Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.&lt;br /&gt;Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:&lt;br /&gt;— Espera aí.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;12.&lt;/strong&gt; Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma cousa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;13.&lt;/strong&gt; Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da vocação. Dois dias depois, foi levá-la ao editor das outras polcas suas, que andariam já por umas trinta. O editor achou-a linda.&lt;br /&gt;— Vai fazer grande efeito.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;14.&lt;/strong&gt; Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade, ou por alusão a algum sucesso do dia, — ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou Candongas NãoFazem Festa.&lt;br /&gt;— Mas que quer dizer Candongas Não Fazem Festa? perguntou o autor.&lt;br /&gt;— Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;15.&lt;/strong&gt; Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e guardou a polca, mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;16.&lt;/strong&gt; Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio.&lt;br /&gt;— E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;17.&lt;/strong&gt; Exposta à venda, esgotou-se logo a primeira edição. A fama do compositor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero, original, convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando não a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;18.&lt;/strong&gt; Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma cousa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mão da música fácil...&lt;br /&gt;— As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;19.&lt;/strong&gt; Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa viveu até casar, e depois de casar.&lt;br /&gt;— Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu aquela notícia.&lt;br /&gt;— Vai casar com uma viúva.&lt;br /&gt;— Velha?&lt;br /&gt;— Vinte e sete anos.&lt;br /&gt;— Bonita?&lt;br /&gt;— Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;20.&lt;/strong&gt; Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;21.&lt;/strong&gt; Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;22.&lt;/strong&gt; Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto, trabalhava às escondidas; cousa difícil porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.&lt;br /&gt;— Acaba, disse Maria, não é Chopin?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;23.&lt;/strong&gt; Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de memória, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de S. Cristóvão.&lt;br /&gt;— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca!&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;24.&lt;/strong&gt; Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambição e a vocação... Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;25.&lt;/strong&gt; Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, — eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e desesperado.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;26.&lt;/strong&gt; Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama... Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-da-colônia e de Labarraque, saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;27.&lt;/strong&gt; Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;28.&lt;/strong&gt; Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta. não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Requiem não estava concluído. Redobrou de esforços, esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco... A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;29.&lt;/strong&gt; Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao Requiem.&lt;br /&gt;"Para quê?" dizia ele a si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;30.&lt;/strong&gt; Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor.&lt;br /&gt;— Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nada.&lt;br /&gt;— Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;31.&lt;/strong&gt; Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato.&lt;br /&gt;— Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vão fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à Eleição Direta!&lt;br /&gt;Não é política; é um bom título de ocasião.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;32.&lt;/strong&gt; Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia alguma boa ópera ou concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando aquela porção de cousas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro inédito; então, sentava-se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;33.&lt;/strong&gt; Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;34.&lt;/strong&gt; Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.&lt;br /&gt;— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.&lt;br /&gt;— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;35.&lt;/strong&gt; Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.&lt;br /&gt;— Adeus.&lt;br /&gt;— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;36.&lt;/strong&gt; Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-3958706816595514786?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/3958706816595514786/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=3958706816595514786' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/3958706816595514786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/3958706816595514786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/04/um-homem-clebre-de-machado-de-assis.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-6400832695154986031</id><published>2007-04-04T13:18:00.000-07:00</published><updated>2007-04-04T13:51:39.892-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Conto de Escola&lt;/strong&gt;, Machado de Assis (em &lt;em&gt;Várias histórias&lt;/em&gt;, 1896)&lt;br /&gt;Fonte:&lt;br /&gt;ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.&lt;br /&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;br /&gt;Texto-base digitalizado por:&lt;br /&gt;Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística&lt;br /&gt;(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Conto de Escola&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p&gt;1. A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia — uma segunda-feira, do mês de maio — deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;2. Na semana anterior tinha feito dous suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;3. Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;4. — Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.&lt;br /&gt;Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;5. — O que é que você quer?&lt;br /&gt;— Logo, respondeu ele com voz trêmula.&lt;br /&gt;Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;6. Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;7.&lt;br /&gt;— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.&lt;br /&gt;— Não diga isso, murmurou ele.&lt;br /&gt;Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma cousa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;8. — Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.&lt;br /&gt;— Que é?&lt;br /&gt;— Você...&lt;br /&gt;— Você quê?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;9. Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;10. Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...&lt;br /&gt;— De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.&lt;br /&gt;— Então agora...&lt;br /&gt;— Papai está olhando.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;11. Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;12. No fim de algum tempo — dez ou doze minutos — Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.&lt;br /&gt;— Sabe o que tenho aqui?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Uma pratinha que mamãe me deu.&lt;br /&gt;— Hoje?&lt;br /&gt;— Não, no outro dia, quando fiz anos...&lt;br /&gt;— Pratinha de verdade?&lt;br /&gt;— De verdade.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;13. Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dous tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.&lt;br /&gt;— Mas então você fica sem ela?&lt;br /&gt;— Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;14. Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;15. Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;16. Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a cousa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, — mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma cousa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;17. Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. — Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...&lt;br /&gt;— Tome, tome...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;18. Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.&lt;br /&gt;— Dê cá...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;19. Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;20. De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;21. — Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.&lt;br /&gt;— Diga-me isto só, murmurou ele.&lt;br /&gt;Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;22. — Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.&lt;br /&gt;Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.&lt;br /&gt;— Venha cá! bradou o mestre.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;23. Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.&lt;br /&gt;— Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? Disse-me o Policarpo.&lt;br /&gt;— Eu...&lt;br /&gt;— Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;24. Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de cousas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;25. — Perdão, seu mestre... solucei eu.&lt;br /&gt;— Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a&lt;br /&gt;mão!&lt;br /&gt;— Mas, seu mestre...&lt;br /&gt;— Olhe que é pior!&lt;br /&gt;&lt;p&gt;26. Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se&lt;br /&gt;repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!&lt;br /&gt;&lt;p&gt;27. Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dous serem cinco.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;28. Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma cousa?&lt;br /&gt;&lt;p&gt;29. " Tu me pagas! tão duro como osso!" dizia eu comigo.&lt;br /&gt;Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;30. Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dous meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;31. De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;32. Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...&lt;br /&gt;FIM&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-6400832695154986031?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/6400832695154986031/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=6400832695154986031' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/6400832695154986031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/6400832695154986031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/04/conto-de-escola-machado-de-assis-em.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-5816678076667664243</id><published>2007-04-04T13:10:00.000-07:00</published><updated>2007-04-04T13:17:53.854-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A Igreja do Diabo, de Machado de Assis&lt;br /&gt;Fonte:&lt;br /&gt;ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.&lt;br /&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;br /&gt;Texto-base digitalizado por:&lt;br /&gt;Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.&lt;br /&gt;Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A IGREJA DO DIABO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo I&lt;br /&gt;De uma idéia mirífica&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p&gt;1. Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;2. — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero.&lt;br /&gt;Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;3. Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;Entre Deus e o Diabo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p&gt;4. Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;5. — Que me queres tu? perguntou este.&lt;br /&gt;— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.&lt;br /&gt;— Explica-te.&lt;br /&gt;— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...&lt;br /&gt;— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;6. — Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?&lt;br /&gt;— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.&lt;br /&gt;— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.&lt;br /&gt;— Vai.&lt;br /&gt;— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?&lt;br /&gt;— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;7. O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:&lt;br /&gt;— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazêlas todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...&lt;br /&gt;— Velho retórico! murmurou o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;8. — Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda...&lt;br /&gt;Vou a negócios mais altos...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;9. Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram&lt;br /&gt;no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.&lt;br /&gt;— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?&lt;br /&gt;— Já vos disse que não.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;10. — Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?&lt;br /&gt;— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.&lt;br /&gt;— Negas esta morte?&lt;br /&gt;— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...&lt;br /&gt;— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!&lt;br /&gt;&lt;p&gt;11. Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo III&lt;br /&gt;A boa nova aos homens&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p&gt;12. Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;13. — Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...&lt;br /&gt;&lt;p&gt;14. Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;15. Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;16. As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;17. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não hámulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;18. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;19. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;20. Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IV&lt;br /&gt;Franjas e franjas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;21. A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;22. Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;23. A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se&lt;br /&gt;na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;24. Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:&lt;br /&gt;&lt;p&gt;25. — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda,&lt;br /&gt;como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-5816678076667664243?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/5816678076667664243/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=5816678076667664243' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/5816678076667664243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/5816678076667664243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/04/igreja-do-diabo-de-machado-de-assis.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-6045565564342006264</id><published>2007-04-04T11:52:00.000-07:00</published><updated>2007-04-04T11:54:04.370-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O Machete&lt;br /&gt;Machado de Assis, Jornal das Famílias, 1878&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observação: Numerei os parágrafos do texto, para facilitar a leitura em sala de aula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S: Já coloquei na pasta o trecho do capítulo do Chalhoub que estava faltando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte:&lt;br /&gt;UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA&lt;br /&gt;Núcleo Pesquisas em Informática. Literatura e Lingüística (NUPILL)&lt;br /&gt;LITERATURA BRASILEIRA&lt;br /&gt;Textos literários em meio eletrônico&lt;br /&gt;O Machete, de Machado de Assis&lt;br /&gt;Edição de Referência: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,&lt;br /&gt;Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 1. Inácio Ramos contava apenas dez anos quando manifestou decidida vocação musical. Seu pai, músico da imperial capela, ensinou-lhe os primeiros rudimentos da sua arte, de envolta com os da gramática de que pouco sabia. Era um pobre artista cujo único mérito estava na voz de tenor e na arte com que executava a música sacra. Inácio conseguintemente, aprendeu melhor a música do que a língua, e aos quinze anos sabia mais dos bemóis que dos verbos. Ainda assim sabia quanto bastava para ler a história da música e dos grandes mestres. A leitura seduziu-o ainda mais; atirou-se o rapaz com todas as forças da alma à arte do seu coração, e ficou dentro de pouco tempo um rabequista de primeira categoria.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 2. A  rabeca foi o primeiro instrumento escolhido por ele, como o que melhor podia corresponder às sensaçoes de sua alma. Não o satisfazia, entretanto, e ele sonhava alguma cousa melhor. Um dia veio ao Rio de Janeiro um velho alemão, que arrebatou o público tocando violoncelo. Inácio foi ouví-lo. Seu entusiasmo foi imenso; não somente a alma do artista comunicava com a sua como lhe dera a chave do segredo que ele procurara.&lt;br /&gt;Inácio nascera para o violoncelo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 3. Daquele dia em diante, o violoncelo foi o sonho do artista fluminense. Aproveitando a passagem do artista germanico, Inácio recebeu dele algumas lições, que mais tarde aproveitou quando, mediante economias de longo tempo, conseguiu possuir o sonhado instrumento.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 4. Já a esse tempo seu pai era morto.— Restava-lhe sua mãe, boa e santa senhora, cuja alma parecia superior à condição em que nascera, tão elevada tinha a concepção do belo. Inácio contava vinte anos, uma figura artística, uns olhos cheios de vida e de futuro. Vivia de algumas lições que dava e de alguns meios que lhe advinham das circunstâncias, tocando ora num teatro, ora num salão, ora numa igreja. Restavam-lhe algumas horas, que ele empregava ao estudo do violoncelo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 5.  Havia no violoncelo uma poesia austera e pura, uma feição melancólica e severa que casavam com a alma de Inácio Ramos. A rabeca, que ele ainda amava como o primeiro veículo de seus sentimentos de artista, não lhe inspirava mais o entusiasmo antigo. Passara a ser um simples meio de vida; não a tocava com a alma, mas com as mãos; não era a sua arte, mas o seu ofício. O violoncelo sim; para esse guardava Inácio as melhores das suas aspirações íntimas, os sentimentos mais puros, a imaginação, o fervor, o entusiasmo. Tocava a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 6. Moravam ambos em lugar afastado, em um dos recantos da cidade, alheios à sociedade que os cercava e que os não entendia. Nas horas de lazer, tratava Inácio do querido instrumento e fazia vibrar todas as cordas do coração, derramando as suas harmonias interiores, e fazendo chorar a boa velha de melancolia e gosto, que ambos estes sentimentos lhe inspirava a música do filho. Os serões caseiros quando Inácio não tinha de cumprir nenhuma obrigação fora de casa, eram assim passados; sós os dois, com o instrumento e o céu de permeio.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 7. A boa velha adoeceu e morreu. Inácio sentiu o vácuo que lhe ficava na vida. Quando o caixão, levado por meia dúzia de artistas seus colegas, saiu da casa, Inácio viu ir ali dentro todo o passado, e presente, e não sabia se também o futuro. Acreditou que o fosse. A noite do enterro foi pouca para o repouso que o corpo lhe pedia depois do profundo abalo; a seguinte porém foi a data da sua primeira composição musical. Escreveu para o violoncelo uma elegia que não seria sublime como perfeição de arte, mas que o era sem dúvida como inspiração pessoal. Compô-la para si; durante dois anos ninguém a ouviu nem sequer soube dela.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 8. A primeira vez que ele troou aquele suspiro fúnebre foi oito dias depois de casado, um dia em que se achava a sós com a mulher, na mesma casa em que morrera sua mãe, na mesma sala em que ambos costumavam passar algumas horas da noite. Era a primeira vez que a mulher o ouvia tocar violoncelo. Ele quis que a lembrança da mãe se casasse àquela revelação que ele fazia à esposa do seu coração: vinculava de algum modo o passado ao presente.&lt;br /&gt;— Toca um pouco de violoncelo, tinha-lhe dito a mulher duas vezes depois do consórcio;&lt;br /&gt;tua mãe me dizia que tocavas tão bem!&lt;br /&gt;— Bem, não sei, respondia Inácio; mas tenho satisfação em tocá-lo.&lt;br /&gt;— Pois sim, desejo ouvir-te!&lt;br /&gt;— Por hora, não, deixa-me contemplar-te primeiro.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 9. Ao cabo de oito dias, Inácio satisfez o desejo de Carlotinha. Era de tarde, — uma tarde fria e deliciosa. O artista travou do instrumento, empunhou o arco e as cordas gemeram ao impulso da mão inspirada. Não via a mulher, nem o lugar, nem o instrumento sequer: via a imagem da mãe e embebia-se todo em um mundo de harmonias celestiais. A execução durou vinte minutos. Quando a última nota expirou nas cordas do violoncelo, o braço do artista tombou, não de fadiga, mas porque todo o corpo cedia ao abalo moral que a recordação e a obra lhe produziam.&lt;br /&gt;— Oh! lindo! lindo! exclamou Carlotinha levantando-se e indo ter com o marido.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 10. Inácio estremeceu e olhou pasmado para a mulher. Aquela exclamação de entusiasmo destoara-lhe, em primeiro lugar porque o trecho que acabava de executar não era lindo, como ela dizia, mas severo e melancólico e depois porque, em vez de um aplauso ruidoso, ele preferia ver outro mais consentâneo com a natureza da obra, — duas lágrimas que fossem, — duas, mas exprimidas do coração, como as que naquele momento lhe sulcavam o rosto.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 11. Seu primeiro movimento foi de despeito, — despeito de artista, que nele dominava tudo. Pegou silencioso no instrumento e foi pô-lo a um canto. A moça viu-lhe então as lágrimas; comoveu-se e estendeu-lhe os braços.&lt;br /&gt;Inácio apertou-a ao coração.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 12. Carlotinha sentou-se então, com ele, ao pé da janela, donde viam surdir no céu as primeiras estrelas. Era uma mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove, mais baixa que alta, rosto amorenado, olhos negros e travessos. Aqueles olhos, expressão fiel da alma de Carlota, contrastavam com o olhar brando e velado do marido. Os movimentos da moça eram vivos e rápidos, a voz argentina, a palavra fácil e correntia, toda ela uma índole, mundana e jovial. Inácio gostava de ouvi-la e vê-la; amava-a muito, e, além disso, como que precisava às vezes daquela expressão de vida exterior para entregar-se todo às especulações do seu espírito.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 13. Carlota era filha de um negociante de pequena escala, homem que trabalhou a vida toda como um mouro para morrer pobre, porque a pouca fazenda que deixou, mal pôde chegar para satisfazer alguns empenhos. Toda a riqueza da filha era a beleza, que a tinha, ainda que sem poesia nem ideal. Inácio, conhecera-a ainda em vida do pai, quando ela ia com este visitar sua velha mãe; mas só a amou deveras, depois que ela ficou órfã e quando a alma lhe pediu um afeto para suprir o que a morte lhe levara.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 14. A moça aceitou com prazer a mão que Inácio lhe oferecia. Casaram-se a aprazimento dos parentes da moça e das pessoas que os conheciam a ambos. O vácuo fora preenchido.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 15. Apesar do episódio acima narrado, os dias, as semanas e os meses correram tecidos de ouro para o esposo artista. Carlotinha era naturalmente faceira e amiga de brilhar; mas contentava-se com pouco, e não se mostrava exigente nem extravagante. As posses de Inácio Ramos eram poucas; ainda assim ele sabia dirigir a vida de modo que nem o necessário lhe faltava nem deixava de satisfazer algum dos desejos mais modestos da moça. A sociedade deles não era certamente dispendiosa nem vivia de ostentação; mas qualquer que seja o centro social há nele exigências a que não podem chegar todas as bolsas. Carlotinha vivera de festas e passatempos; a vida conjugal exigia dela hábitos menos frívolos, e ela soube curvar-se à lei que de coração aceitara.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 16. Demais, que há aí que verdadeiramente resista ao amor? Os dois amavam-se; por maior que fosse o contraste entre a índole de um e outro, ligava-os e irmanava-os o afeto verdadeiro que os aproximara. O primeiro milagre do amor fora a aceitação por parte da moça do famoso violoncelo. Carlotinha não experimentava decerto as sensações que o violoncelo produzia no marido, e estava longe daquela paixão silenciosa e profunda que vinculava Inácio Ramos ao instrumento; mas acostumara-se a ouvi-lo, apreciava-o, e chegara a entendê-lo alguma vez.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 17. A esposa concebeu. No dia em que o marido ouviu esta notícia sentiu um abalo profundo; seu amor cresceu de intensidade.&lt;br /&gt;— Quando o nosso filho nascer, disse ele, eu comporei o meu segundo canto.&lt;br /&gt;— O terceiro será quando eu morrer, não? perguntou a moça com um leve tom de despeito:&lt;br /&gt;— Oh! não digas isso!&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 18. Inácio Ramos compreendeu a censura da mulher; recolheu-se durante algumas horas, e trouxe uma composição nova, a segunda que lhe saía da alma, dedicada à esposa. A música entusiasmou Carlotinha, antes por vaidade satisfeita do que porque verdadeiramente a penetrasse. Carlotinha abraçou o marido com todas as forças de que podia dispor, e um beijo foi o prêmio da inspiração. A felicidade de Inácio não podia ser maior; ele tinha tido o que ambicionava: vida de arte, paz e ventura doméstica, e enfim esperanças de patemidade.&lt;br /&gt;— Se for menino, dizia ele à mulher, aprenderá violoncelo; se for menina, aprenderá harpa. São os únicos instrumentos capazes de traduzir as impressões mais sublimes do espírito.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 19. Nasceu um menino. Esta nova criatura deu uma feição nova ao lar doméstico. A felicidade do artista era imensa; sentiu-se com mais força para o trabalho, e ao mesmo tempo como que se lhe apurou a inspiração.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 20. A prometida composição ao nascimento do filho foi realizada e executada, não já entre ele e a mulher, mas em presença de algumas pessoas de amizade. Inácio Ramos recusou a princípio fazê-lo; mas a mulher alcançou dele que repartisse com estranhos aquela nova produção de um talento. Inácio sabia que a sociedade não chegaria talvez a compreendê-lo como ele desejava ser compreendido; todavia cedeu. Se acertara aos seus receios não o soube ele, porque dessa vez, como das outras, não viu ninguém; viu-se e ouviu-se a si próprio, sendo cada nota um eco das harmonias santas e elevadas que a paternidade acordara nele.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 21. A vida correria assim monotonamente bela, e não valeria a pena escrevê-la, a não ser um incidente, ocorrido naquela mesma ocasião. A casa em que eles moravam era baixa, ainda que assaz larga e airosa. Dois transeuntes, atraídos pelos sons do violoncelo, aproximaram-se das janelas entrefechadas, e ouviram do lado de fora cerca de metade da composição. Um deles, entusiasmado com a composição e a execução, rompeu em aplausos ruidosos quando Inácio acabou, abriu violentamente as portas da janela e curvou-se para dentro gritando.&lt;br /&gt;— Bravo, artista divino!&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 22. A exclamação inesperada chamou a atenção dos que estavam na sala; voltaram-se todos os olhos e viram duas figuras de homem, um tranqüilo, outro alvoroçado de prazer. A porta foi aberta aos dois estranhos. O mais entusiasmado deles correu a abraçar o artista.&lt;br /&gt;— Oh! alma de anjo! exclamava ele. Como é que um artista destes está aqui escondido dos olhos do mundo ?&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 23. O outro personagem fez igualmente cumprimentos de louvor ao mestre do violoncelo; mas, como ficou dito, seus aplausos eram menos entusiásticos; e não era difícil achar a explicação da frieza na vulgaridade de expressão do rosto.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 24. Estes dois personagens assim entrados na sala eram dois amigos que o acaso ali conduzira. Eram ambos estudantes de direito, em férias; o entusiasta, todo arte e literatura, tinha a alma cheia de música alemã e poesia romantica, e era nada menos que um exemplar daquela falange acadêmica fervorosa e moça animada de todas as paixões, sonhos, delírios e efusões da geração moderna; o companheiro era apenas um espírito medíocre, avesso a todas essas cousas, não menos que ao direito que aliás forcejava por meter na cabeça.&lt;br /&gt;Aquele chamava-se Amaral, este Barbosa.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 25. Amaral pediu a Inácio Ramos para lá voltar mais vezes. Voltou; o artista de coração gastava o tempo a ouvir o de profissão fazer falar as cordas do instrumento. Eram cinco pessoas; eles, Barbosa, Carlotinha, e a criança, o futuro violoncelista. Um dia, menos de uma semana depois, Amaral descobriu a Inácio que o seu companheiro era músico.&lt;br /&gt;— Também! exclamou o artista.&lt;br /&gt;— É verdade; mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele sorrindo.&lt;br /&gt;— Que instrumento toca?&lt;br /&gt;— Adivinhe.&lt;br /&gt;— Talvez piano...&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Flauta?&lt;br /&gt;— Qual!&lt;br /&gt;— É instrumento de cordas?&lt;br /&gt;— É.&lt;br /&gt;— Não sendo rabeca... disse Inácio olhando como a esperar uma confirmação.&lt;br /&gt;— Não é rabeca; é machete.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 26. Inácio sorriu; e estas últimas palavras chegaram aos ouvidos de Barbosa, que confirmou a notícia do amigo.&lt;br /&gt;— Deixe estar, disse este baixo a Inácio, que eu o hei de fazer tocar um dia. É outro gênero...&lt;br /&gt;— Quando queira.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 27. Era efetivamente outro gênero, como o leitor facilmente compreenderá. Ali postos os quatro, numa noite da seguinte semana, sentou-se Barbosa no centro da sala, afinou o machete e pôs em execução toda a sua perícia. A perícia era, na verdade grande; o instrumento é que era pequeno. O que ele tocou não era Weber nem Mozart; era uma cantiga do tempo e da rua, obra de ocasião. Barbosa tocou-a, não dizer com alma, mas com nervos. Todo ele acompanhava a gradação e variações das notas; inclinava-se sobre o instrumento, retesava o corpo, pendia a cabeça ora a um lado, ora a outro, alçava a perna, sorria, derretia os olhos ou fechava-os nos lugares que lhe pareciam patéticos. Ouvi-lo tocar era o menos; vê-lo era o mais. Quem somente o ouvisse não poderia compreendê-lo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 28. Foi um sucesso, — um sucesso de outro gênero, mas perigoso, porque, tão depressa Barbosa ouviu os cumprimentos de Carlotinh e Inácio, começou segunda execução, e iria a terceira, se Amaral, não interviesse, dizendo:&lt;br /&gt;— Agora o violoncelo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 29. O machete de Barbosa não ficou escondido entre as quatro partes da sala de Inácio Ramos; dentro em pouco era conhecida forma dele no bairro em que morava o artista, e toda a sociedad deste ansiava por ouvi-lo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 30. Carlotinha foi a denunciadora; ela achara infinita graça e vida naquela outra música, e não cessava de o elogiar em toda a parte. As famílias do lugar tinham ainda saudades de um célebre machete que ali tocara anos antes o atual subdelegado, cujas funções elevadas não lhe permitiram cultivar a arte. Ouvir o machete de Barbosa era reviver uma página do passado.&lt;br /&gt;— Pois eu farei com que o ouçam, dizia a moça.&lt;br /&gt;Não foi difícil.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 31. Houve dali a pouco reunião em casa de uma família da vizinhança. Barbosa acedeu ao convite que lhe foi feito e lá foi com o seu instrumento. Amaral acompanhou-o.&lt;br /&gt;— Não te lastimes, meu divino artista; dizia ele a Inácio; e ajuda-me no sucesso do machete.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 32. Riam-se os dois, e mais do que eles se ria Barbosa, riso de triunfo e satisfação porque o sucesso não podia ser mais completo.&lt;br /&gt;— Magnífico!&lt;br /&gt;— Bravo!&lt;br /&gt;— Soberbo!&lt;br /&gt;— Bravíssimo!&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 33. O machete foi o herói da noite. Carlota repetia às pessoas que a cercavam:&lt;br /&gt;— Não lhes dizia eu? é um portento.&lt;br /&gt;— Realmente, dizia um crítico do lugar, assim nem o Fagundes ...&lt;br /&gt;Fagundes era o subdelegado.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 34. Pode-se dizer que Inácio e Amaral foram os únicos alheios ao entusiasmo do machete. Conversavam eles, ao pé de uma janela, dos grandes mestres e das grandes obras da arte.&lt;br /&gt;— Você por que não dá um concerto? perguntou Amaral ao artista.&lt;br /&gt;— Oh! não.&lt;br /&gt;— Por quê?&lt;br /&gt;— Tenho medo...&lt;br /&gt;— Ora, medo!&lt;br /&gt;— Medo de não agradar...&lt;br /&gt;— Há de agradar por força!&lt;br /&gt;— Além disso, o violoncelo está tao ligado aos sucessos mais íntimos da minha vida, que eu o considero antes como a minha arte doméstica...&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 35. Amaral combatia estas objeções de Inácio Ramos; e este fazia-se cada vez mais forte nelas. A conversa foi prolongada, repetiu-se daí a dois dias, até que no fim de uma semana, Inácio deixou-se vencer.&lt;br /&gt;— Você verá, dizia-lhe o estudante, e verá como todo o público vai ficar delirante.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 36. Assentou-se que o concerto seria dali a dois meses. Inácio tocaria uma das peças já compostas por ele, e duas de dois mestres que escolheu dentre as muitas.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 37. Barbosa não foi dos menos entusiastas da idéia do concerto. Ele parecia tomar agora mais interesse nos sucessos do artista, ouvia com prazer, ao menos aparente, os serões de violoncelo, que eram duas vezes por semana. Carlotinha propôs que os serões fossem três; mas Inácio nada concedeu além dos dois. Aquelas noites eram passadas somente em família; e o machete acabava muita vez o que o violoncelo começava. Era uma condescendência para com a dona da casa e o artista! — o artista do machete.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 38. Um dia Amaral olhou Inácio preocupado e triste. Não quis perguntar-lhe nada; mas como a preocupação continuasse nos dias sub seqüentes, não se pôde ter e interrogou-o. Inácio respondeu-lhe com evasivas.&lt;br /&gt;— Não, dizia o estudante; você tem alguma cousa que o incomoda certamente.&lt;br /&gt;— Cousa nenhuma!&lt;br /&gt;E depois de um instante de silêncio:&lt;br /&gt;— O que tenho é que estou arrependido do violoncelo; se eu tivesse estudado o machete!&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 39. Amaral ouviu admirado estas palavras; depois sorriu e abanou a cabeça. Seu entusiasmo recebera um grande abalo. A que vinha aquele ciúme por causa do efeito diferente que os dois instrumentos tinham produzido? Que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?&lt;br /&gt;— Não podias ser perfeito, dizia Amaral consigo; tinhas por força um ponto fraco; infelizmente para ti o ponto é ridículo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 40. Daí em diante os serões foram menos amiudados. A preocupação de Inácio Ramos continuava; Amaral sentia que o seu entusiasmo ia cada vez a menos, o entusiasmo em relação ao homem, porque bastava ouvi-lo tocar para acordarem-se-lhe as primeiras impressões.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 41. A melancolia de Inácio era cada vez maior. Sua mulher só reparou nela quando absolutamente se lhe meteu pelos olhos.&lt;br /&gt;— Que tens? perguntou-lhe Carlotinha.&lt;br /&gt;— Nada, respondia Inácio.&lt;br /&gt;— Aposto que está pensando em alguma composição nova, disse Barbosa que dessas ocasiões estava presente.&lt;br /&gt;— Talvez, respondeu Inácio; penso em fazer uma cousa inteiramente nova; um concerto para violoncelo e machete.&lt;br /&gt;— Por que não? disse Barbosa com simplicidade. Faça isso, e veremos o efeito que há de ser delicioso.&lt;br /&gt;— Eu creio que sim, murmurou Inácio.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 42. Não houve concerto no teatro, como se havia assentado; porque Inácio Ramos de todo se recusou. Acabaram-se as férias e os dois estudantes voltaram para S. Paulo.&lt;br /&gt;— Virei vê-lo daqui a pouco, disse Amaral. Virei até cá somente para ouvi-lo.&lt;br /&gt;Efetivamente vieram os dois, sendo a viagem anunciada por carta de ambos.&lt;br /&gt;Inácio deu a notícia à mulher, que a recebeu com alegria.&lt;br /&gt;— Vêm ficar muitos dias? disse ela.&lt;br /&gt;— Parece que somente três.&lt;br /&gt;— Três!&lt;br /&gt;— É pouco, disse Inácio; mas nas férias que vêm, desejo aprender o machete.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 43. Carlotinha sorriu, mas de um sorriso acanhado, que o marido viu e guardou consigo. Os dois estudantes foram recebidos como se fossem de casa. Inácio e Carlotinha desfaziam-se em obséquios. Na noite do mesmo dia, houve serão musical; só violoncelo, a instâncias de Amaral, que dizia:&lt;br /&gt;— Não profanemos a arte!&lt;br /&gt;Três dias vinham eles demorar-se, mas não se retiraram no fim deles.&lt;br /&gt;— Vamos daqui a dois dias.&lt;br /&gt;— O melhor é completar a semana, observou Carlotinha.&lt;br /&gt;— Pode ser.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 44. No fim de uma semana, Amaral despediu-se e voltou a S. Paulo; Barbosa não voltou; ficara doente. A doença durou somente dois dias, no fim dos quais ele foi visitar o violoncelista.&lt;br /&gt;— Vai agora? perguntou este.&lt;br /&gt;— Não, disse o acadêmico; recebi uma carta que me obriga a ficar algum tempo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 45. Carlotinha ouvira alegre a notícia; o rosto de Inácio não tinha nenhuma expressão.&lt;br /&gt;Inácio não quis prosseguir nos serões musicais, apesar de lho pedir algumas vezes Barbosa, e não quis porque, dizia ele, não queria ficar mal com Amaral, do mesmo modo que não quereria ficar mal com Barbosa, se fosse este o ausente.&lt;br /&gt;— Nada impede, porém, concluiu o artista, que ouçamos o seu machete.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 46. Que tempo duraram aqueles serões de machete? Não chegou tal notícia ao conhecimento do escritor destas linhas. O que ele sabe apenas é que o machete deve ser instrumento triste, porque a melancolia de Inácio tornou-se cada vez mais profunda. Seus companheiros nunca o tinham visto imensamente alegre; contudo a diferença entre o que tinha sido e era agora entrava pelos olhos dentro. A mudança manifestava-se até no trajar, que era desleixado, ao contrário do que sempre fora antes. Inácio tinha grandes silêncios, durante os quais era inútil falar-lhe, porque ele a nada respondia, ou respondia sem compreender.&lt;br /&gt;— O violoncelo há de levá-lo ao hospício, dizia um vizinho compadecido e filósofo.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 47. Nas férias seguintes, Amaral foi visitar o seu amigo Inácio, logo no dia seguinte àquele em que desembarcou. Chegou alvoroçado à casa dele; uma preta veio abri-la.&lt;br /&gt;— Onde está ele? Onde está ele? perguntou alegre e em altas vozes o estudante.&lt;br /&gt;A preta desatou a chorar.&lt;br /&gt;Amaral interrogou-a, mas não obtendo resposta, ou obtendo-a intercortada de soluços, correu para.o interior da casa com a familiaridade do amigo e a liberdade que lhe dava a ocasião.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 48. Na sala do concerto, que era nos fundos, olhou ele Inácio Ramos, de pé, com o violoncelo nas mãos preparando-se para tocar. Ao pé dele brincava um menino de alguns meses.&lt;br /&gt;Amaral parou sem compreender nada. Inácio não o viu entrar; empunhara o arco e tocou, — tocou como nunca, — uma elegia plangente, que o estudante ouviu com lágrimas nos&lt;br /&gt;olhos. A criança, dominada ao que parece pela música, olhava quieta para o instrumento.&lt;br /&gt;Durou a cena cerca de vinte minutos.&lt;br /&gt;Quando a música acabou, Amaral correu a Inácio.&lt;br /&gt;— Oh! meu divino artista! exclamou ele.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 49. Inácio apertou-o nos braços; mas logo o deixou e foi sentar-se numa cadeira com os olhos no chão. Amaral nada compreendia; sentia porém que algum abalo moral se dera nele.&lt;br /&gt;— Que tens? disse.&lt;br /&gt;— Nada, respondeu Inácio.&lt;br /&gt;E ergueu-se e tocou de novo o violoncelo. Não acabou porém; no meio de uma arcada, interrompeu a música, e disse a Amaral.&lt;br /&gt;— É bonito, não?&lt;br /&gt;— Sublime! respondeu o outro.&lt;br /&gt;— Não; machete é melhor.&lt;br /&gt;&lt;p&gt; 50. E deixou o violoncelo, e correu a abraçar o filho.&lt;br /&gt;— Sim, meu filho, exclamava ele, hás de aprender machete; machete é muito melhor.&lt;br /&gt;— Mas que há? articulou o estudante.&lt;br /&gt;— Oh! nada, disse Inácio, ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; machete é melhor.&lt;br /&gt;A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-6045565564342006264?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/6045565564342006264/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=6045565564342006264' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/6045565564342006264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/6045565564342006264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/04/o-machete-machado-de-assis-jornal-das.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-8555229011582683466</id><published>2007-03-28T07:05:00.000-07:00</published><updated>2007-03-28T07:09:34.158-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Conto Alexandrino, de Machado de Assis&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Fonte: ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.&lt;br /&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;br /&gt;Texto-base digitalizado por:&lt;br /&gt;Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.&lt;br /&gt;Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa&lt;br /&gt;Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para &lt;bibvirt@futuro.usp.br&gt;. Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para &lt;bibvirt@futuro.usp.br&gt;e saiba como isso é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTO ALEXANDRINO&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo I&lt;br /&gt;No mar&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;— O quê, meu caro Stroibus! Não, impossível. Nunca jamais ninguém acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.&lt;br /&gt;— Em primeiro lugar, Pítias, tu omites uma condição: — é que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, para que o sangue traga o seu princípio. Essa condição é essencial. Em segundo lugar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com ele uma experiência, e cheguei a produzir um ladrão...&lt;br /&gt;— Ladrão autêntico?&lt;br /&gt;— Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior alegria do mundo: — a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade imortal. Sim, meu caro Pítias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na águia...&lt;br /&gt;— Os do sábio na coruja, interrompeu Pítias sorrindo.&lt;br /&gt;— Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudéssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de um caseiro um viajeiro. O princípio da fidelidade conjugal está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em suma, os deuses puseram nos bichos da terra, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe. Esta é a minha filosofia recente; esta é a que vou divulgar na corte do grande Ptolomeu.&lt;br /&gt;Pítias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dois filósofos, que iam levar àquele regaço do saber os frutos da razão esclarecida. Eram amigos, viúvos e qüinquagenários. Cultivavam especialmente a metafísica, mas conheciam a física, a química, a medicina e a música; um deles, Stroibus, chegara a ser excelente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do mestre Herófilo. Chipre era a pátria de ambos; mas, tão certo é que ninguém é profeta em sua terra, Chipre não dava o merecido respeito aos dois filósofos. Ao contrário, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir deles. Não foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a pátria. Um dia, Pítias, voltando de uma viagem, propôs ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as ciências eram grandemente honradas.&lt;br /&gt;Stroibus aderiu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que o inventor da nova doutrina expô-la ao amigo, com todas as suas recentes cogitações e experiências.&lt;br /&gt;— Está feito, disse Pítias, levantando a cabeça, não afirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a desenvolvê-la e divulgá-la.&lt;br /&gt;— Viva Hélios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discípulo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;Experiência&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Os garotos alexandrinos não trataram os dois sábios com o escárnio dos garotos cipriotas. A terra era grave como a íbis pousada numa só pata, pensativa como a esfinge, circunspecta como as múmias, dura como as pirâmides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e corte, que desde muito tinham notícia dos nossos dois amigos, fizeram-lhes um recebimento régio, mostraram conhecer os seus escritos, discutiram as suas idéias, mandaram-lhes muitos presentes, papiros, crocodilos, zebras, púrpuras. Eles, porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a filosofia bastava ao filósofo, e que o supérfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sábios como aos principais e à mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra coisa se podia esperar de dois homens tão sublimes, que em seus magníficos tratados...&lt;br /&gt;— Temos coisa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.&lt;br /&gt;— Não é esse o ofício dos deuses? objetava um.&lt;br /&gt;— Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a sintaxe da natureza, eu descobri as leis da gramática divina...&lt;br /&gt;— Explica-te.&lt;br /&gt;— Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando minha doutrina estiver completa, divulgá-la-ei como a maior riqueza que os homens jamais poderão receber de um homem.&lt;br /&gt;Imaginem a expectação pública e a curiosidade dos outros filósofos, embora incrédulos de que a verdade recente viesse aposentar as que eles mesmos possuíam. Entretanto, esperavam todos. Os dois hóspedes eram apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o Egito, desde os Faraós até aos Lágides, era a terra de Putifar, da mulher de Putifar, da capa de José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.&lt;br /&gt;Pítias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:&lt;br /&gt;— Metafisicamente, a tua doutrina é um despropósito; mas estou pronto a admitir uma experiência, contando que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, há só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo de razão como pela rigidez do caráter, somos o que há mais oposto ao vício do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vício, não será preciso mais; se não conseguires nada (e pode crê-lo, porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e tornarás às nossas velhas meditações.&lt;br /&gt;Stroibus aceitou a proposta.&lt;br /&gt;— O meu sacrifício é o mais penoso, disse ele, pois estou certo do resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é imortal; o homem é um breve momento...&lt;br /&gt;Os ratos egípcios, se pudessem saber de um tal acordo, teriam imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova filosofia. E podemos crer que seria um desastre. A ciência, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorância dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e física dos dois filósofos eram outras tantas vantagens na experiência que ia começar, cumpria não perder tão boa ocasião de saber se efetivamente o princípio das paixões e das virtudes humanas estava distribuído pelas várias espécies de animais, e se era possível transmiti-lo.&lt;br /&gt;Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de pano no focinho do paciente; em seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal à tábua da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião dele que a morte instantânea corrompia o sangue e retirava-lhe o princípio. Hábil anatomista, operava com uma firmeza digna do propósito científico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contorções de dor e de agonia tornavam difícil o meneio do escalpelo; mas essa era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e prático.&lt;br /&gt;Ao lado dele, Pítias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papiro; e assim ganhava a ciência de duas maneiras. Às vezes, por divergência de apreciação, eram obrigados a escalpelar maior número de ratos do que o necessário; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só desses casos mostrará a consciência com que eles procediam. Pítias observara que a retina do rato agonizante mudava de cor até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a cor de canela como o tom final da morte. Estavam na última operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante o cansaço, fizeram sucessivamente dezenove experiências sem resultado definitivo; Pítias insistia pela cor azul, e Stroibus pela cor de canela. O vigésimo rato esteve prestes a pô-los de acordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição era agora diferente, retificou-a e escalpelaram mais vinte e cinco. Destes, o primeiro ainda os deixou em dúvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a cor final não era canela nem azul, mas um lírio roxo, tirando a claro.&lt;br /&gt;A descrição exagerada das experimentações deu rebate à porção sentimental da cidade, e excitou a loqüela de alguns sofistas; mas o grave Stroibus (com brandura, para não agravar uma disposição própria da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinóis, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a ciência, ganhava a cidade, vendo diminuída a praga de um animal tão daninho; e, se a mesma consideração não se dava com outros animais, como, por exemplo, as rolas e os cães, que eles iam escalpelar daí a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescritíveis. A natureza não há de ser só a mesa de jantar, concluía em forma de aforismo, mas também a mesa da ciência.&lt;br /&gt;E continuavam a extrair o sangue e a bebê-lo. Não o bebiam puro, mas diluído em um cozimento de cinamomo, suco de acácia e bálsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diárias e diminutas; tinham, portanto, de aguardar um longo prazo antes de produzido o efeito. Pítias, impaciente e incrédulo, mofava do amigo.&lt;br /&gt;— Então? nada?&lt;br /&gt;— Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vício como se cose um par de sandálias.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo III&lt;br /&gt;Vitória&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Enfim, venceu Stroibus! A experiência provou a doutrina. E Pítias foi o primeiro que deu mostras da realidade do efeito, atribuindo-se umas três idéias ouvidas ao próprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro comparações e uma teoria dos ventos. Nada mais científico do que essas estréias. As idéias alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar comum; e é muito natural começar por elas antes de passar aos livros emprestados, às galinhas, aos papéis falsos, às províncias, etc. A própria denominação de plágio é um indício de que os homens compreendem a dificuldade de confundir esse embrião da ladroeira com a ladroeira formal. Duro é dizê-lo; mas a verdade é que eles deitaram ao Nilo a bagagem metafísica, e dentro de pouco estavam larápios acabados. Concertavam-se de véspera, e iam aos mantos, aos bronzes, às ânforas de vinho, às mercadorias do porto, às boas dracmas. Como furtassem sem estrépito, ninguém dava por eles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como fazê-lo crer aos outros? Já então Ptolomeu coligira na biblioteca muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordená-las, designou para isso cinco gramáticos e cinco filósofos, entre estes os nossos dois amigos. Estes últimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os últimos que saíam, e ficando ali muitas noites, ao clarão da lâmpada, decifrando, coligindo, classificando. Ptolomeu, entusiasmado, meditava para eles os mais altos destinos.&lt;br /&gt;Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves: — um exemplar de Homero, três rolos de manuscritos persas, dois de samaritanos, uma soberba coleção de cartas originais de Alexandre, cópias de leis atenienses, o 2º e o 3º livros da República de Platão, etc., etc. A autoridade pôs-se à espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo superior, era naturalmente maior, e os dois ilustres gatunos zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito filosófico de não sair dali com as mãos vazias; traziam sempre alguma coisa, uma fábula, quando menos. Enfim, estando a sair um navio para Chipre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar, coseram os livros dentro de couros de hipopótamo, puseram-lhes rótulos falsos, e trataram de fugir.&lt;br /&gt;Mas a inveja de outros filósofos não dormia; deu rebate às suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e Pítias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes daqueles dois varões ilustres; Ptolomeu entregou-os à justiça com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveio Herófilo, inventor da anatomia.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo IV&lt;br /&gt;Plus Ultra!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;— Senhor, disse ele a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora escalpelar cadáveres. Mas o cadáver dá-me a estrutura, não me dá a vida; dá-me os órgãos, não me dá as funções. Eu preciso das funções e da vida.&lt;br /&gt;— Que me dizes? redargüiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?&lt;br /&gt;— Não, senhor; não quero estripar os ratos.&lt;br /&gt;— Os cães? os gansos? as lebres?...&lt;br /&gt;— Nada; peço alguns homens vivos.&lt;br /&gt;— Vivos? não é possível...&lt;br /&gt;— Vou demonstrar que não só é possível, mas até legítimo e necessário. As prisões egípcias estão cheias de criminosos, e os criminosos ocupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principais característicos humanos, eles os perderam, infringindo a lei e a moral. Além disso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que prestem algum serviço à verdade e à ciência? A verdade é imortal; ela vale não só todos os ratos, como todos os delinqüentes do universo.&lt;br /&gt;Ptolomeu achou o raciocínio exato, e ordenou que os criminosos fossem entregues a Herófilo e seus discípulos. O grande anatomista agradeceu tão insigne obséquio, e começou a escalpelar os réus. Grande foi o assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbais, não houve nenhuma manifestação contra a medida. Herófilo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus à experiência anatômica era até um modo indireto de servir à moral, visto que o terror do escalpelo impediria a prática de muitos crimes.&lt;br /&gt;Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino científico que o esperava. Saíam um por um; às vezes dois a dois, ou três a três. Muitos deles, estendidos e atados à mesa da operação, não chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo gênero de execução sumária. Só quando os anatomistas definiam o objeto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a consciência da situação. Os que se lembravam de ter visto as experiências dos ratos, padeciam em dobro, porque a imaginação juntava à dor presente o espetáculo passado.&lt;br /&gt;Para conciliar os interesses da ciência com os impulsos da piedade, os réus não eram escalpelados à vista uns dos outros, mas sucessivamente. Quando vinham aos dois ou aos três, não ficavam em lugar donde os que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes abafados por meio de aparelhos; mas se eram abafados, não eram suprimidos, e em certos casos, o próprio objeto da experiência exigia que a emissão da voz fosse franca. Às vezes as operações eram simultâneas; mas então faziam-se em lugares distanciados.&lt;br /&gt;Tinham sido escalpelados cerca de cinqüenta réus, quando chegou a vez de Stroibus e Pítias. Vieram buscá-los; eles supuseram que era para a morte judiciária, e encomendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e explicaram o caso alegando que era um impulso da fome; adiante, porém, subtraíram uma flauta, e essa outra ação não a puderam explicar satisfatoriamente. Todavia, a astúcia do larápio é infinita, e Stroibus, para justificar a ação, tentou extrair algumas notas do instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não ignoravam a sorte que iam ter. A notícia desses dois novos delitos foi narrada por Herófilo, e abalou a todos os seus discípulos.&lt;br /&gt;— Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinário, um caso lindíssimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...&lt;br /&gt;O ponto era saber se o nervo do latrocínio residia na palma da mão ou na extremidade dos dedos; problema esse sugerido por um dos discípulos. Stroibus foi o primeiro sujeito à operação. Compreendeu tudo, desde que entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte ínfima, pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um filósofo. Mas Herófilo, com um grande poder de dialética, disse-lhe mais ou menos isto: — Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o único meio para resgatar o crime de iludir a um príncipe esclarecido, presta-te ao escalpelo; no segundo caso, não deves ignorar que a obrigação do filósofo é servir à filosofia, e que o corpo é nada em comparação com o entendimento.&lt;br /&gt;Dito isto, começaram pela experiência das mãos, que produziu ótimos resultados, coligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus. Também as mãos de Pítias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os infelizes berravam, choravam, suplicavam; mas Herófilo dizia-lhes pacificamente que a obrigação do filósofo era servir à filosofia, e que para os fins da ciência, eles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato para o homem. E continuou a rasgá-los fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir praticamente uma teoria sobre a conformação interior do órgão. Não falo da extração do estômago de ambos, por se tratar de problemas relativamente secundários, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou seis indivíduos escalpelados antes deles.&lt;br /&gt;Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso aflitivo e doloroso com danças e festas, a que convidaram alguns cães, rolas, pavões e outros animais ameaçados de igual destino, e outrossim, que nenhum dos convidados aceitou o convite, por sugestão de um cachorro, que lhes disse melancolicamente: — "Século virá em que a mesma coisa nos aconteça". Ao que retorquiu um rato: "Mas até lá, riamos!"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-8555229011582683466?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/8555229011582683466/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=8555229011582683466' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/8555229011582683466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/8555229011582683466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/conto-alexandrino-de-machado-de-assis.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-7138593783678053662</id><published>2007-03-24T08:12:00.000-07:00</published><updated>2007-03-24T08:13:58.025-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Finalmente consegui achar o conto MARIANA 1 (ver post anterior, infra), ei-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARIANA&lt;br /&gt;[JF. jan. de 1871.]&lt;br /&gt;Voltei de Europa depois de uma ausência de quinze anos. Era quanto bastava para vir achar muita cousa mudada. Alguns amigos tinham morrido, outros estavam casados, outros viúvos. Quatro ou cinco tinham-se feito homens públicos, e um deles acabava de ser ministro de Estado. Sobre todos eles pesavam quinze anos de desilusões e cansaço. Eu, entretanto, vinha tão moço como fora, não no rosto e nos cabelos, que começavam a embranquecer, mas na alma e no coração que estavam em flor. Foi essa a vantagem que tirei das minhas constantes viagens. Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio. Mas deixemos estas filosofias inúteis.&lt;br /&gt;Também achei mudado o nosso Rio de Janeiro, e mudado para melhor. O jardim do Rocio, o boulevard Carceller, cinco ou seis hotéis novos, novos prédios, grande movimento comercial e popular, tudo isso fez em meu espírito uma agradável impressão.&lt;br /&gt;Fui hospedar-me no Hotel Damiani. Chamo-lhe assim para conservar um nome que tem para mim recordações saudosas. Agora o hotel chama-se Ravot. Tem defronte uma grande casa de modas e um escritório de jornal político. Dizem-me que a casa de modas faz mais negócio que o jornal. Não admira; poucos lêem, mas todos se vestem.&lt;br /&gt;Estava eu justamente a contemplar o espetáculo novo que a rua me oferecia quando vi passar um indivíduo cuja fisionomia me não era estranha. Desci logo à rua e cheguei à porta quando ele passava defronte.&lt;br /&gt;— Coutinho! exclamei.&lt;br /&gt;— Macedo! disse o interpelado correndo a mim.&lt;br /&gt;Entramos no corredor e aí demos aberta às nossas primeiras expansões.&lt;br /&gt;— Que milagre é este? por que estás aqui? quando chegaste?&lt;br /&gt;Estas e outras perguntas fazia-me o meu amigo entre repetidos abraços. Convidei-o a subir e a almoçar comigo, o que aceitou, com a condição porém de que iria buscar mais dous amigos nossos, que eu estimaria ver. Eram efetivamente dous excelentes companheiros de outro tempo. Um deles estava à frente de uma grande casa comercial; o outro, depois de algumas vicissitudes, fizera-se escrivão de uma vara cível.&lt;br /&gt;Reunidos os quatro na minha sala do hotel, foi servido um suculento almoço, em que aliás eu e o Coutinho tomamos parte. Os outros limitavam-se a fazer a razão de alguns brindes e a propor outros.&lt;br /&gt;Quiseram que eu lhes contasse as minhas viagens; cedi francamente a este desejo natural. Não lhes ocultei nada. Contei-lhes o que havia visto desde o Tejo até o Danúbio, desde Paris até Jerusalém. Fi-los assistir na imaginação às corridas de Chantilly e às jornadas das caravanas no deserto; falei do céu nevoento de Londres e do céu azul da Itália. Nada me escapou; tudo lhes referi.&lt;br /&gt;Cada qual fez as suas confissões. O negociante não hesitou em dizer tudo quanto sofrera antes de alcançar a posição atual. Deu-me notícia de que estava casado, e tinha uma filha de dez anos no colégio. O escrivão achou-se um tanto envergonhado quando lhe tocou a vez de dizer a sua vida; todos nós tivemos a delicadeza de não insistir nesse ponto.&lt;br /&gt;Coutinho não hesitou em dizer que era mais ou menos o que era outrora a respeito da ociosidade; sentia-se entretanto mudado e entrevia ao longe idéias de casamento.&lt;br /&gt;— Não te casaste? perguntei eu.&lt;br /&gt;— Com a prima Amélia? disse ele; não.&lt;br /&gt;— Por quê?&lt;br /&gt;— Porque não foi possível.&lt;br /&gt;— Mas continuaste a vida solta que levavas?&lt;br /&gt;— Que pergunta! exclamou o negociante. É a mesma cousa que era há quinze anos. Não mudou nada.&lt;br /&gt;— Não digas isso; mudei.&lt;br /&gt;— Para pior? perguntei eu rindo.&lt;br /&gt;— Não, disse Coutinho, não sou pior do que era; mudei nos sentimentos; acho que hoje não me vale a pena cuidar de ser mais feliz do que sou.&lt;br /&gt;— E podias sê-lo, se te houvesse casado com tua prima. Amava-te muito aquela moça; ainda me lembro das lágrimas que lhes vi derramar em um dia de entrudo. Lembras-te?&lt;br /&gt;— Não me lembra, disse Coutinho ficando mais sério do que estava; mais creio que deve ter sido isso.&lt;br /&gt;— E o que é feito dela?&lt;br /&gt;— Casou.&lt;br /&gt;— Ah!&lt;br /&gt;— É hoje fazendeira; e dá-se perfeitamente com o marido. Mas não falemos nisto, acrescentou Coutinho, enchendo um cálix de cognac; o que lá vai, lá vai!&lt;br /&gt;Houve alguns instantes de silêncio, que eu não quis interromper, por me parecer que o nome da moça trouxera ao rapaz alguma recordação dolorosa.&lt;br /&gt;Rapaz é uma maneira de dizer. Coutinho contava já seus trinta e nove anos e tinha alguns fios brancos na cabeça e na barba. Mas apesar desse evidente sinal do tempo, eu aprazia-me em ver os meu amigos pelo prisma da recordação que levara deles.&lt;br /&gt;Coutinho foi o primeiro que rompeu o silêncio.&lt;br /&gt;— Pois que estamos aqui reunidos, disse ele, ao cabo de quinze anos, deixem que, sem exemplo, e para completar as nossas confidências recíprocas, eu lhes confesse uma cousa, que nunca saiu de mim.&lt;br /&gt;— Bravo! disse eu; ouçamos a confidência de Coutinho.&lt;br /&gt;Acendemos nossos charutos. Coutinho começou a falar:&lt;br /&gt;— Eu namorava a prima Amélia, como sabem; o nosso casamento devia efetuar-se um ano depois que daqui saíste. Não se efetuou por circunstâncias que ocorreram depois, e com grande mágoa minha, pois gostava dela. Antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem depois nem antes, e por nenhuma mulher fui amado jamais como fui...&lt;br /&gt;— Por tua prima? perguntei eu. — Não; por uma cria de casa.&lt;br /&gt;Olhamos todos espantados um para outro. Ignorávamos esta circunstância, e estávamos a cem léguas de semelhante conclusão. Coutinho não parece atender ao nosso espanto; sacudia distraidamente a cinza do charuto e parecia absorto na recordação que o seu espírito evocava.&lt;br /&gt;— Chamava-se Mariana, continuou ele alguns minutos depois, e era uma gentil mulatinha nascida e criada como filha da casa, e recebendo de minha mãe os mesmos afagos que ela dispensava às outras filhas. Não se sentava à mesa, nem vinha à sala em ocasião de visitas, eis a diferença; no mais era como se fosse pessoa livre, e até minhas irmãs tinham certa afeição fraternal. Mariana possuía a inteligência da sua situação, e não abusava dos cuidados com que era tratada. Compreendia bem que na situação em que se achava só lhe restava pagar com muito reconhecimento a bondade de sua senhora.&lt;br /&gt;A sua educação não fora tão completa como a de minhas irmãs; contudo, Mariana sabia mais do que outras mulheres em igual caso. Além dos trabalhos de agulha que lhe foram ensinados com extremo zelo, aprendera a ler e a escrever. Quando chegou aos 15 anos teve desejo de saber francês, e minha irmã mais moça lho ensinou com tanta paciência e felicidade, que Mariana em pouco tempo ficou sabendo tanto como ela.&lt;br /&gt;Como tinha inteligência natural, todas estas cousas lhe foram fáceis. O desenvolvimento do seu espírito não prejudicava o desenvolvimento de seus encantos. Mariana aos 18 anos era o tipo mais completo da sua raça. Sentia-se-lhe o fogo através da tez morena do rosto, fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo voluptuoso, pé pequeno e mãos de senhora. É impossível que eu esteja a idealizar esta criatura que no entanto me desapareceu dos olhos; mas não estarei muito longe da verdade.&lt;br /&gt;Mariana era apreciada por todos quantos iam a nossa casa, homens e senhoras. Meu tio, João Luís, dizia-me muitas vezes: — "Por que diabo está tua mãe guardando aqui em casa esta flor peregrina? A rapariga precisa de tomar ar".&lt;br /&gt;Posso dizer, agora que já passou muito tempo, esta preocupação do tio nunca me passou pela cabeça; acostumado a ver Mariana bem tratada parecia-me ver nela uma pessoa da família, e além disso, ser-me-ia doloroso contribuir para causar tristeza a minha mãe.&lt;br /&gt;Amélia ia lá a casa algumas vezes; mas era o princípio, e antes que nenhum namoro houvesse entre nós. Cuido, porém, que foi Mariana quem chamou a atenção da moça para mim. Amélia deu-mo a entender um dia. O certo é que uma tarde, depois de jantar, estávamos a tomar café no terraço, e eu reparei na beleza de Amélia com uma atenção mais demorada que de costume. Fosse acaso ou fenômeno magnético, a moça olhava também para mim. Prolongaram-se os nossos olhares... ficamos a amar um ao outro. Todos os amores começam pouco mais ou menos, assim.&lt;br /&gt;Acho inútil contar minuciosamente este namoro de rapaz, que vocês em parte conhecem, e que não apresentou episódio notável. Meus pais aprovaram a minha escolha; os pais de Amélia fizeram o mesmo. Nada se opunha à nossa felicidade. Preparei-me um dia de ponto em branco e fui pedir a meu tio a mão da filha. Foi-me ela concedida, com a condição apenas de que o casamento seria efetuado alguns meses depois, quando o irmão de Amélia tivesse completado os estudos, e pudesse assistir à cerimônia com a sua carta de bacharel.&lt;br /&gt;Durante este tempo Mariana estava em casa de uma parenta nossa que nô-la foi pedir para costurar uns vestidos. Mariana era excelente costureira. Quando ela voltou para casa, estava assentado o meu casamento com Amélia; e, como era natural, eu passava a maior parte do tempo em casa da prima, saboreando aquelas castas efusões de amor e ternura que antecedem o casamento. Mariana notou as minhas prolongadas ausências, e, com uma dissimulação assaz inteligente, indagou de minha irmã Josefa a causa delas. Disse-lho Josefa. Que se passou então no espírito de Mariana? Não sei; mas no dia seguinte, depois do almoço quando eu me dispunha a ir vestir-me, Mariana veio encontrar-me no corredor que ia ter ao meu quarto, com o pretexto de entregar-me um maço de charuto que me caíra do bolso. O maço fora previamente tirado da caixa que eu tinha no quarto.&lt;br /&gt;— Aqui tem, disse ela com voz trêmula.&lt;br /&gt;— O que é? perguntei.&lt;br /&gt;— Estes charutos. . . caíram do bolso de senhor moço.&lt;br /&gt;— Ah!&lt;br /&gt;Recebi o maço de charutos e guardei-o no bolso do casaco; mas durante esse tempo, Mariana conservou-se diante de mim. Olhei para ela; tinha os olhos postos no chão.&lt;br /&gt;— Então, que fazes tu? disse eu em tom de galhofa.&lt;br /&gt;— Nada, respondeu ela levantando os olhos para mim. Estavam rasos de lágrimas.&lt;br /&gt;Admirou-me essa manifestação inesperada da parte de uma rapariga que todos estavam acostumados a ver alegre e descuidosa da vida. Supus que houvesse cometido alguma falta e recorresse a mim para protegê-la junto de minha mãe. Nesse caso a falta devia ser grande, porque minha mãe era a bondade em pessoa, e tudo perdoava às suas amadas crias.&lt;br /&gt;— Que tens, Mariana? perguntei.&lt;br /&gt;E como ela não respondesse e continuasse a olhar para mim, chamei em voz alta por minha mãe. Mariana apressou-se a tapar-me a boca, e esquivando-se às minhas mãos fugiu pelo corredor fora.&lt;br /&gt;Fiquei a olhar ainda alguns instantes para ela, sem compreender nem as lágrimas, nem o gesto, nem a fuga. O meu principal cuidado era outro; a lembrança do incidente passou depressa, fui vestir-me e sai.&lt;br /&gt;Quando voltei à casa não vi Mariana, nem reparei na falta dela. Acontecia isso muitas vezes. Mas depois de jantar lembrou-me o incidente da véspera e perguntei a Josefa o que haveria magoado a rapariga que tão romanescamente me falara no corredor.&lt;br /&gt;— Não sei, disse Josefa, mas alguma cousa haverá porque Mariana anda triste desde anteontem. Que supões tu?&lt;br /&gt;— Alguma cousa faria e tem medo da mamãe.&lt;br /&gt;— Não, disse Josefa; pode ser antes algum namoro.&lt;br /&gt;— Ah! tu pensas quê?&lt;br /&gt;— Pode ser.&lt;br /&gt;— E quem será o namorado da senhora Mariana, perguntei rindo. O copeiro ou o cocheiro?&lt;br /&gt;— Tanto não sei eu; mas seja quem for, será alguém que lhe inspirasse amor; é quanto basta para que se mereçam um ao outro.&lt;br /&gt;— Filosofia humanitária! Filosofia de mulher, respondeu Josefa com um ar tão sério que me impôs silêncio.&lt;br /&gt;Mariana não me apareceu nos três dias seguintes. No quarto dia, estávamos almoçando, quando ela atravessou a sala de jantar, tomou a bênção a todos e foi para dentro. O meu quarto ficava além da sala de jantar e tinha uma janela que dava para o pátio e enfrentava com a janela do gabinete de costura. Quando fui para o meu quarto, Mariana estava nesse gabinete ocupada em preparar vários objetos para uns trabalhos de agulha. Não tinha os olhos em mim, mas eu percebia que o seu olhar acompanhava os meus movimentos. Aproximei-me da janela e disse-lhe:&lt;br /&gt;— Estás mais alegre, Mariana?&lt;br /&gt;A mulatinha assustou-se, voltou a cara para diversos lados, como se tivesse medo de que as minhas palavras fossem ouvidas, e finalmente impôs-me silêncio com o dedo na boca.&lt;br /&gt;— Mas que é? perguntei eu dando à minha voz a moderação compatível com a distancia.&lt;br /&gt;Sua única resposta foi repetir-me o mesmo gesto.&lt;br /&gt;Era evidente que a tristeza de Mariana tinha uma causa misteriosa, pois que ela receava revelar nada a esse respeito.&lt;br /&gt;Que seria senão algum namoro como minha irmã supunha? Convencido disto, e querendo continuar uma investigação curiosa, aproveitei a primeira ocasião que se me ofereceu.&lt;br /&gt;— Que tens tu, Mariana? disse eu; andas triste e misteriosa. É algum namorico? Anda, fala; tu és estimada por todos cá de casa.&lt;br /&gt;Se gostas de alguém poderás ser feliz com ele porque ninguém te oporá obstáculos aos teus desejos.&lt;br /&gt;— Ninguém? perguntou ela com singular expressão de incredulidade.&lt;br /&gt;— Quem teria interesse nisso?&lt;br /&gt;— Não falemos nisso, nhonhô. Não se trata de amores, que eu não posso ter amores. Sou uma simples escrava.&lt;br /&gt;— Escrava, é verdade, mas escrava quase senhora. És tratada aqui como filha da casa. Esqueces esses benefícios?&lt;br /&gt;— Não os esqueço; mas tenho grande pena em havê-los recebido.&lt;br /&gt;— Que dizes, insolente?&lt;br /&gt;— Insolente? disse Mariana com altivez. Perdão! continuou ela voltando à sua humildade natural e ajoelhando-se a meus pés; perdão, se disse aquilo; não foi por querer: eu sei o que sou; mas se nhonhô soubesse a razão estou certa que me perdoaria.&lt;br /&gt;Comoveu-me esta linguagem da rapariga. Não sou mau; compreendi que alguma grande preocupação teria feito com que Mariana esquecesse por instantes a sua condição e o respeito que nos devia a todos.&lt;br /&gt;— Está bom, disse eu, levanta-te e vai-te embora; mas não tornes a dizer cousas dessas que me obrigas a contar tudo à senhora velha.&lt;br /&gt;Mariana levantou-se, agarrou-me na mão, beijou-a repetidas vezes entre lágrimas e desapareceu.&lt;br /&gt;Todos estes acontecimentos tinham chamado a minha atenção para a mulatinha. Parecia-me evidente que ela sentia alguma cousa por alguém, e ao mesmo tempo que o sentia, certa elevação e nobreza. Tais sentimentos contrastavam com a fatalidade da sua condição social. Que seria uma paixão daquela pobre escrava educada com mimos de senhora? Refleti longamente nisto tudo, e concebi um projeto romantico: obter a confissão franca de Mariana e, no caso em que se tratasse de um amor que a pudesse tornar feliz, pedir a minha mãe a liberdade da escrava.&lt;br /&gt;Josefa aprovou a minha idéia, e incumbiu-se de interrogar a rapariga e alcançar pela confiança aquilo que me seria mais difícil obter pela imposição ou sequer pelo conselho.&lt;br /&gt;Mariana recusou dizer cousa nenhuma a minha irmã. Debalde empregou esta todos os meios de sedução possíveis entre uma senhora e uma escrava. Mariana respondia invariavelmente que nada havia que confessar. Josefa comunicou-me o que se passara entre ambas.&lt;br /&gt;—Tentarei eu, respondi; verei se sou mais feliz.&lt;br /&gt;Mariana resistiu às minhas interrogações repetidas, asseverando que nada sentia e rindo de que se pudesse supor semelhante cousa. Mas era um riso forçado, que antes confirmava a suspeita do que a negativa .&lt;br /&gt;— Bem, disse eu, quando me convenci de que nada podia alcançar; bem, tu negas o que te pergunto. Minha mãe saberá interrogar-te.&lt;br /&gt;Mariana estremeceu.&lt;br /&gt;— Mas, disse ela, por que razão sinhá velha há de saber disto? Eu já disse a verdade.&lt;br /&gt;— Não disseste, respondi eu; e não sei por que recusas dizê-la quando tratamos todos da tua felicidade.&lt;br /&gt;— Bem, disse Mariana com resolução, promete que se eu disser a verdade não me interrogará mais?&lt;br /&gt;— Prometo, disse eu rindo.&lt;br /&gt;— Pois bem; é verdade que eu gosto de uma pessoa...&lt;br /&gt;— Quem é?&lt;br /&gt;— Não posso dizer.&lt;br /&gt;— Por quê?&lt;br /&gt;— Porque é um amor impossível.&lt;br /&gt;— Impossível? Sabes o que são amores impossíveis?&lt;br /&gt;Roçou pelos lábios da mulatinha um sorriso de amargura e dor.&lt;br /&gt;— Sei! disse ela.&lt;br /&gt;Nem pedidos, nem ameaças conseguiram de Mariana uma declaração positiva a este respeito. Josefa foi mais feliz do que eu; conseguiu não arrancar-lhe o segredo, mas suspeitar-lho, e veio dizer-me o que lhe parecia.&lt;br /&gt;— Que seja eu o querido de Mariana? perguntei-lhe com um riso de mofa e incredulidade. Estás louca, Josefa. Pois ela atrever-se-ia! . . .&lt;br /&gt;— Parece que se atreveu.&lt;br /&gt;— A descoberta é galante; e realmente não sei o que pense disto . . .&lt;br /&gt;Não continuei, disse a Josefa que não falasse em semelhante cousa e desistisse de maiores explorações. Na minha opinião o caso tomava outro caráter; tratava-se de uma simples exaltação de sentidos.&lt;br /&gt;Enganei-me.&lt;br /&gt;Cerca de cinco semanas antes do dia marcado para o casamento, Mariana adoeceu. O médico deu à moléstia um nome bárbaro, mas na opinião de Josefa era doença de amor. A doente recusou tomar nenhum remédio; minha mãe estava louca de pena; minha irmãs sentiam deveras a moléstia da escrava. Esta ficava cada vez mais abatida; não comia, nem se medicava; era de recear que morresse. Foi nestas circunstâncias que eu resolvi fazer um ato de caridade. Fui ter em Mariana e pedi-lhe que vivesse.&lt;br /&gt;— Manda-me viver? perguntou ela.&lt;br /&gt;— Sim.&lt;br /&gt;Foi eficaz a lembrança; Mariana restabeleceu-se em pouco tempo. Quinze dias depois estava completamente de pé.&lt;br /&gt;Que esperanças concebera ela com as minhas palavras, não sei; cuido que elas só tiveram efeito por lhe acharem o espírito abatido. Acaso contaria ela que eu desistisse do casamento projetado e do amor que tinha à prima, para satisfazer os seus amores impossíveis? Não sei; o certo é que não só se lhe restaurou a saúde como também lhe voltou a alegria primitiva.&lt;br /&gt;Confesso, entretanto que, apesar de não competir de modo nenhum os sentimentos de Mariana, entrei a olhar para ela com outros olhos. A rapariga tornara-se interessante para mim, e qualquer que seja a condição de uma mulher, há sempre dentro de nós um fundo de vaidade que se lisonjeia com a afeição que ela nos vote. Além disto, surgiu em meu espírito uma idéia que a razão pode condenar, mas que nossos costumes aceitam perfeitamente. Mariana encarregara-se de provar que estava acima das veleidades. Um dia de manhã fui acordado pelo alvoroço que havia em casa. Vesti-me à pressa e fui saber o que era. Mariana tinha desaparecido de casa. Achei minha mãe desconsoladíssima: estava triste e indignada ao mesmo tempo. Doía-lhe a ingratidão da escrava. Josefa veio ter comigo.&lt;br /&gt;— Eu suspeitava,  disse ela, que alguma cousa acontecesse. Mariana andava alegre demais; parecia-me contentamento fingido para encobrir algum plano. O plano foi este. Que te parece?&lt;br /&gt;— Creio que devemos fazer esforços para capturá-la, e uma vez restituída à casa, colocá-la na situação verdadeira do cativeiro.&lt;br /&gt;Disse isto por me estar a doer o desespero de minha mãe. A verdade é que, por simples egoísmo, eu desculpava o ato da rapariga.&lt;br /&gt;Parecia-me natural, e agradava-me ao espírito, que a rapariga tivesse fugido para não assistir à minha ventura, que seria realidade daí a oito dias. Mas a idéia de suicídio veio aguar-me o gosto; estremeci com a suspeita de ser involuntariamente causa de um crime dessa ordem; impelido pelo remorso, saí apressadamente em busca de Mariana.&lt;br /&gt;Achei-me na rua sem saber o que devia fazer. Andei cerca de vinte minutos inutilmente, até que me ocorreu a idéia natural de recorrer à polícia; era prosaica a intervenção da polícia, mas eu não fazia romance; ia simplesmente em cata de uma fugitiva.&lt;br /&gt;A polícia nada sabia de Mariana; mas lá deixei a nota competente; correram agentes em todas as direções: fui eu mesmo saber nos arrabaldes se havia notícia de Mariana. Tudo foi inútil; às três horas da tarde voltei para casa sem poder tranqüilizar minha família. Na minha opinião tudo estava perdido.&lt;br /&gt;Fui à noite à casa de Amélia, aonde não fora de tarde, motivo pelo qual havia recebido um recado em carta a uma de minhas irmãs. A casa de minha prima ficava em uma esquina. Eram oito horas da noite quando cheguei à porta da casa. A três ou quatro passos estava um vulto de mulher cosido com a parede. Aproximei-me: era Mariana.&lt;br /&gt;— Que fazes aqui? perguntei eu.&lt;br /&gt;— Perdão, nhonhô; vinha vê-lo.&lt;br /&gt;— Ver-me? mas por que saíste de casa, onde eras tão bem tratada, e donde não tinhas o direito de sair, porque és cativa?&lt;br /&gt;— Nhonhô, eu saí porque sofria muito...&lt;br /&gt;— Sofrias muito! Tratavam-te mal? Bem sei o que é; são os resultados da educação que minha mãe te deu. Já te supões senhora e livre. Pois enganas-te; hás de voltar já, e já, para casa. Sofrerás as conseqüências da tua ingratidão. Vamos...&lt;br /&gt;— Não! disse ela; não irei.&lt;br /&gt;— Mariana, tu abusas da afeição que todos temos por ti. Eu não tolero essa recusa, e se me repetes isso...&lt;br /&gt;— Que fará?&lt;br /&gt;— Irás à força- irás com dous soldados.&lt;br /&gt;— Nhonhô fará isso? disse ela com voz trêmula. Não quero obrigá-lo a incomodar os soldados, iremos juntos, ou irei só. O que eu queria, é que nhonhô não fosse tão cruel... porque enfim eu não tenho culpa se... Paciência! vamos... eu vou.&lt;br /&gt;Mariana começou a chorar. Tive pena dela.&lt;br /&gt;— Tranquiliza-te, Mariana, disse-lhe; eu intercederei por ti. Mamãe não te fará mal.&lt;br /&gt;— Que importa que faça? Eu estou disposta a tudo... Ninguém tem que ver com as minhas desgraças. . . Estou pronta; podemos ir.&lt;br /&gt;— Saibamos outra cousa, disse eu, alguém te seduziu para fugir?&lt;br /&gt;Esta pergunta era astuciosa; eu desejava apenas desviar do espírito da rapariga qualquer suspeita de que eu soubesse dos seus amores por mim. Foi desastrada a astúcia. O único efeito da pergunta foi indigná-la.&lt;br /&gt;— Se alguém me seduziu? perguntou ela; não, ninguém; fugi porque eu o amo, e não posso ser amada, eu sou uma infeliz escrava. Aqui está por que eu fugi. Podemos ir; já disse tudo. Estou pronta a carregar com as conseqüências disto.&lt;br /&gt;Não pude arrancar mais nada à rapariga. Apenas quando lhe perguntei se havia comido, respondeu-me que não, mas que não tinha fome.&lt;br /&gt;Chegamos à casa eu e ela perto das nove horas da noite. Minha mãe já não tinha esperanças de tornar a ver Mariana; o prazer que a vista da escrava lhe deu foi maior que a indignação pelo seu procedimento. Começou por invectivá-la. Intercedi a tempo de acalmar a justa indignação de minha mãe e Mariana foi dormir tranqüilamente.&lt;br /&gt;Não sei se tranqüilamente. No dia seguinte tinha os olhos inchados e estava triste. A situação da pobre rapariga interessara-me bastante, o que era natural, sendo eu a causa indireta daquela dor profunda. Falei muito nesse episódio em casa de minha prima. O tio João Luís disse-me em particular que eu fora um asno e um ingrato.&lt;br /&gt;— Por quê? perguntei-lhe.&lt;br /&gt;— Porque devias ter posto Mariana debaixo da minha proteção, a fim de livrá-la do mau tratamento que vai ter.&lt;br /&gt;— Ah! não, minha mãe já lhe perdoou.&lt;br /&gt;— Nunca lhe perdoará como eu.&lt;br /&gt;Falei tanto em Mariana que minha prima entrou a sentir um disparatado ciúme. Protestei-lhe que era loucura e abatimento ter zelos de uma cria de casa, e que o meu interesse era simples sentimento de piedade. Parece que as minhas palavras não lhe fizeram grande impressão.&lt;br /&gt;Extremamente leviana, Amélia não soube conservar a necessária dignidade, quando foi a minha casa. Conversou muito na necessidade de tratar severamente as escravas, e achou que era dar mau exemplo mandar-lhes ensinar alguma cousa.&lt;br /&gt;Minha mãe admirou-se muito desta linguagem na boca de Amélia e redarguiu com aspereza o que lhe dava direito a sua vontade. Amélia insistiu; minhas irmãs combateram as suas opiniões: Amélia ficou amuada. Não havia pior posicão para uma senhora.&lt;br /&gt;Nada escapara a Mariana desta conversa entre Amélia e minha família; mas ela era dissimulada e nada disse que pudesse trair os seus sentimentos. Pelo contrário redobrou de esforços para agradar a minha prima; desfez-se em agrados e respeitos. Amélia recebia todas essas demonstrações com visível sobranceria em vez de as receber com fria dignidade.&lt;br /&gt;Na primeira ocasião em que pude falar a minha prima, chamei a sua atenção para esta situação absurda e ridícula. Disse-lhe que, sem o querer, estava a humilhar-se diante de uma escrava. Amélia não compreendeu o sentimento que me ditou estas palavras, nem a procedência das minhas palavras. Viu naquilo uma defesa de Mariana; respondeu-me com algumas palavras duras e retirou-se para os aposentos de minhas irmãs onde chorou à vontade. Finalmente tudo se acalmou e Amélia voltou tranqüila para casa.&lt;br /&gt;Quatro dias antes do dia marcado para o meu casamento, era a festa do natal. Minha mãe costumava dar festas às escravas. Era um costume que lhe deixara minha avó. As festas consistiam em dinheiro ou algum objeto de pouco valor. Mariana recebia ambas as cousas por uma especial graça. De tarde tiveram gente em casa para jantar: alguns amigos e parentes. Amélia estava presente. Meu tio João Luís era grande amador de discursos à sobremesa. Mal começavam a entrar os doces, quando ele se levantou e começou um discurso que a julgar pelo intróito, devia ser extenso. Como ele tinha suma graça, eram gerais as risadas desde que empunhou o copo. Foi no meio dessa geral alegria que uma das escravas veio dar parte de que Mariana havia desaparecido.&lt;br /&gt;Este segundo ato de rebeldia da mulatinha produziu a mais furiosa impressão em todos. Da primeira vez houve alguma mágoa e saudade de mistura com a indignação. Desta vez houve indignação apenas. Que sentimento devia inspirar a todos a insistência dessa rapariga em fugir de uma casa onde era tratada como filha? Ninguém duvidou mais que Mariana era seduzida por alguém, idéia que na primeira vez se desvaneceu mediante uma piedosa mentira da minha parte; como duvidar agora?&lt;br /&gt;Tais não eram as minhas impressões. Senhor do funesto segredo da escrava, sentia-me penalizado por ser causa indireta das loucuras dela e das tristezas de minha mãe. Ficou assentado que se procuraria a fugitiva e se lhe daria o castigo competente. Deixei que esse momento de cólera se consumasse, e levantei-me para ir procurar Mariana.&lt;br /&gt;Amélia ficou desgostosa com esta resolução, e bem o revelou no olhar; mas eu fingi que a não percebia e saí.&lt;br /&gt;Dei os primeiros passos necessários e usuais. A polícia nada sabia, mas ficou avisada e empregou meios para alcançar a fugitiva. Eu suspeitava que desta vez ela tivesse cometido suicídio; fiz neste sentido as diligências necessárias para ter alguma notícia dela viva ou morta.&lt;br /&gt;Tudo foi inútil.&lt;br /&gt;Quando voltei à casa eram dez horas da noite; todos estavam à minha espera, menos o tio e a prima que já se haviam retirado.&lt;br /&gt;Minha irmã contou-me que Amélia saíra furiosa, porque achava que eu estava dando maior atenção do que devia a uma escrava, embora bonita, acrescentou ela.&lt;br /&gt;Confesso que naquele momento o que me preocupava mais, era Mariana; não porque eu correspondesse aos seus sentimentos por mim, mas porque eu sentia sérios remorsos de ser causa de um crime. Fui sempre pouco amante de aventuras e lances arriscados e não podia pensar sem algum terror na possibilidade de morrer alguém por mim.&lt;br /&gt;Minha vaidade não era tamanha que me abafasse os sentimentos de piedade cristã. Neste estado as invectivas da minha noiva não me fizeram grande impressão, e não foi por causa delas que eu passei a noite em claro.&lt;br /&gt;Continuei no dia seguinte as minhas pesquisas, mas nem eu nem a polícia fomos felizes.&lt;br /&gt;Tendo andado muito, já a pé, já de tílburi, achei-me às cinco horas da tarde no Largo de S. Francisco de Paula, com alguma vontade de comer; a casa ficava um pouco longe e eu queria continuar depois as minhas averiguações. Fui jantar a um hotel que então havia na antiga Rua dos Latoeiros.&lt;br /&gt;Comecei a comer distraído e ruminando mil idéias contrárias, mil suposições absurdas. Estava no meio do iantar quando vi descer do segundo andar da casa um criado com uma bandeja onde havia vários pratos cobertos.&lt;br /&gt;— Não quer jantar, disse o criado ao dono do hotel que se achava no balcão.&lt;br /&gt;— Não quer? perguntou este; mas então. . . não sei o que faça. . . reparaste se... Eu acho bom ir chamar a polícia.&lt;br /&gt;Levantei-me da mesa e aproximei-me do balcão.&lt;br /&gt;— De que se trata? perguntei eu.&lt;br /&gt;— De uma moça que aqui apareceu ontem, e que ainda não comeu até hoje...&lt;br /&gt;Pedi-lhe os sinais da pessoa misteriosa. Não havia dúvida. Era Mariana.&lt;br /&gt;— Creio que sei quem é, disse eu, e ando justamente em procura dela. Deixe-me subir.&lt;br /&gt;O homem hesitou; mas a consideração de que não lhe podia convir continuar a ter em casa uma pessoa por cuja causa viesse a ter questoes com a polícia, fez com que me deixasse o caminho livre.&lt;br /&gt;Acompanhou-me o criado, a quem incumbi de chamar por ela, porque se conhecesse a minha voz, supunha eu que me não quisesse abrir.&lt;br /&gt;Assim se fez. Mariana abriu a porta e eu apareci. Deu um grito estridente e lançou-se-me nos braços. Repeli aquela demonstração com toda a brandura que a situação exigia.&lt;br /&gt;— Não venho aqui para receber-te abraços, disse eu; venho pela segunda vez buscar-te para casa, donde pela segunda vez fugiste.&lt;br /&gt;A palavra fugiste escapou-me dos lábios; todavia, não lhe dei importância senão qundo vi a impressão que ela produziu em Mariana. Confesso que devera ter alguma caridade mais; mas eu queria conciliar os meus sentimentos com os meus deveres, e não fazer com que a mulher não se esquecesse de que era escrava. Mariana parecia disposta a sofrer tudo dos outros, contanto que obtivesse a minha compaixão. Compaixão tinha-lhe eu; mas não lho manifestava, e era esse todo o mal.&lt;br /&gt;Quando a fugitiva recobrou a fala, depois das emoções diversas por que passara desde que me viu chegar, declarou positivamente que era sua intenção não sair dali. Insisti com ela dizendo-lhe que poderia ganhar tudo procedendo bem, ao passo que tudo perderia continuando naquela situação.&lt;br /&gt;— Pouco importa, disse ela; estou disposta a tudo.&lt;br /&gt;— A matar-te, talvez? perguntei eu.&lt;br /&gt;— Talvez, disse ela sorrindo melancolicamente; confesso-lhe até que a minha intenção era morrer na hora do seu casamento, a fim de que fossemos ambos felizes, — nhonhô casando-se, eu morrendo.&lt;br /&gt;— Mas desgraçada, tu não vês que...&lt;br /&gt;— Eu bem sei o que vejo, disse ela; descanse; era essa a minha intenção, mas pode ser que o não faça...&lt;br /&gt;Compreendi que era melhor levá-la pelos meios brandos; entrei a empregá-los sem esquecer nunca a reserva que me impunha a minha posição. Mariana estava resolvida a não voltar. Depois de gastar cerca de uma hora, sem nada obter, declarei-lhe positivamente que ia recorrer aos meios violentos, e que já lhe não era possível resistir. Perguntou-me que meios eram; disse-lhe que eram os agentes policiais.&lt;br /&gt;— Bem vês, Mariana, acrescentei, sempre hás de ir para casa; é melhor que me não obrigues a um ato que me causaria alguma dor.&lt;br /&gt;— Sim? perguntou ela com ânsia; teria dor em levar-me assim para casa?&lt;br /&gt;— Alguma pena teria decerto, respondi; porque tu foste sempre boa rapariga; mas que farei eu se continuas a insistir em ficar aqui?&lt;br /&gt;Mariana encostou a cabeça à parede e começou a soluçar; procurei acalmá-la- foi impossível. Não havia remédio; era necessário empregar o meio heróico. Saí ao corredor para chamar pelo criado que tinha descido logo depois que a porta se abriu.&lt;br /&gt;Quando voltei ao quarto, Mariana acabava de fazer um movimento suspeito. Parecia-me que guardava alguma cousa no bolso. Seria alguma arma?&lt;br /&gt;— Que escondeste aí? perguntei eu.&lt;br /&gt;— Nada, disse ela.&lt;br /&gt;— Mariana, tu tens alguma idéia terrível no espírito... Isso é alguma arma...&lt;br /&gt;— Não, respondeu ela.&lt;br /&gt;Chegou o criado e o dono da casa. Expus-lhes em voz baixa o que queria; o criado saiu, o dono da casa ficou.&lt;br /&gt;— Eu suspeito que ela tem alguma arma no bolso para matar-se; cumpre arrancar-lha.&lt;br /&gt;Dizendo isto ao dono da casa, aproximei-me de Mariana.&lt;br /&gt;— Dá-me o que tens aí.&lt;br /&gt;Ela contraiu um pouco o rosto. Depois, metendo a mão no bolso, entregou-me o objeto que lá havia guardado.&lt;br /&gt;Era um vidro vazio.&lt;br /&gt;— Que é isto, Mariana? perguntei eu, assustado.&lt;br /&gt;— Nada, disse ela; eu queria matar-me depois d'amanhã. Nhonhô apressou a minha morte, nada mais.&lt;br /&gt;— Mariana! exclamei eu aterrado.&lt;br /&gt;— Oh! continuou ela com voz fraca; não lhe quero mal por isso. Nhonhô não tem culpa: a culpa é da natureza. Só o que eu lhe peço é que não me tenha raiva, e que sc lembre algumas vezes de mim. . .&lt;br /&gt;Mariana caiu sobre a cama. Pouco depois entrava o inspetor. Chamou-se à pressa um médico; mas era tarde. O veneno era violento; Mariana morreu às 8 horas da noite.&lt;br /&gt;Sofri muito com este acontecimento; mas alcancei que minha mãe perdoasse à infeliz, confessando-lhe a causa da morte dela. Amélia nada soube, mas nem por isso deixou o fato de influir em seu espírito. O interesse com que eu procurei a rapariga, e a dor que a sua morte me causou, transtornaram a tal ponto os sentimentos da minha noiva, que ela rompeu o casamento dizendo ao pai que havia mudado de resolução.&lt;br /&gt;Tal foi, meus amigos, este incidente da minha vida. Creio que posso dizer ainda hoje que todas as mulheres de quem tenho sido amado, nenhuma me amou mais do que aquela. Sem alimentar-se de nenhuma esperança, entregou-se alegremente ao fogo do martírio amor obscuro, silencioso, desesperado, inspirando o riso ou a indignação, mas no fundo, amor imenso e profundo, sincero e inalterável.&lt;br /&gt;Coutinho concluiu assim a sua narração, que foi ouvida com tristeza por todos nós. Mas daí a pouco saíamos pela Rua do Ouvidor fora, examinando os pés das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou menos engraçadas e oportunas. Duas horas de conversa tinha-nos restituído a mocidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-7138593783678053662?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/7138593783678053662/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=7138593783678053662' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/7138593783678053662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/7138593783678053662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/finalmente-consegui-achar-o-conto.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-4845901677626904748</id><published>2007-03-24T06:06:00.000-07:00</published><updated>2007-03-28T07:05:08.831-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Recado sobre o conto "Mariana": Machado escreveu dois contos chamados "Mariana". O primeiro, publicado no Jornal das Famílias em 1871, é o que nos interessa para para os propósitos do curso e é o conto analisado por Chalhoub em seu livro &lt;em&gt;Machado de Assis, historiador&lt;/em&gt;. Para facilitar e evitar confusões, doravante vamos chamá-lo de MARIANA 1.&lt;br /&gt;O outro conto com o mesmo nome, doravante MARIANA 2, foi publicado em 1896 na coletânea &lt;em&gt;Várias Histórias&lt;/em&gt;. Infelizmente, na Internet, só conseguimos encontrar MARIANA 2. MARIANA 1 já foi colocado no blog (ver post acima deste)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alternativas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conto MARIANA 1 pode ser encontrado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;i. No volume II das &lt;em&gt;Obras Completas&lt;/em&gt; de Machado de Assis, pp. 771-783 (NÃO CONFUNDIR COM MARIANA 2 que também consta deste volume, pp. 542-8);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ii. No primeiro volume da antologia de contos de Machado publicada por John GLEDSON, v.1, pp. 151-170; GLEDSON comenta este conto na sua introdução, ver p. 24.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um abraço e desculpem pela confusão,&lt;br /&gt;Alvito&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-4845901677626904748?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/4845901677626904748/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=4845901677626904748' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/4845901677626904748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/4845901677626904748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/recado-sobre-o-conto-mariana-machado.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-8229492189423839389</id><published>2007-03-20T19:18:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T19:27:14.918-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Aula 3 - Texto de abertura: "Capítulo dos chapéus" - de Machado de Assis&lt;br /&gt;(Obtido no site: &lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br"&gt;www.dominiopublico.gov.br&lt;/a&gt; , acesso em 20/3/2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Capítulo dos Chapéus", de Machado de Assis&lt;br /&gt;Fonte: ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.&lt;br /&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http://www.bibvirt.futuro.usp.br&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;br /&gt;Texto-base digitalizado por:&lt;br /&gt;Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.&lt;br /&gt;Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa&lt;br /&gt;Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as&lt;br /&gt;informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para&lt;br /&gt;&lt;bibvirt@futuro.usp.br&gt;.&lt;br /&gt;Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se&lt;br /&gt;você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para &lt;bibvirt@futuro.usp.br&gt; e saiba&lt;br /&gt;como isso é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;CAPÍTULO DOS CHAPÉUS&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Géronte&lt;br /&gt;Dans quel chapitre, s'il vous plaît?&lt;br /&gt;Sganarelle&lt;br /&gt;Dans le chapitre des chapeaux.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Moliére.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Musa, canta o despeito de Mariana, esposa do bacharel Conrado Seabra, naquela&lt;br /&gt;manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéu, leve, não&lt;br /&gt;deselegante, um chapéu baixo. Conrado, advogado, com escritório na rua da Quitanda,&lt;br /&gt;trazia-o todos os dias à cidade, ia com ele às audiências; só não o levava às recepções,&lt;br /&gt;teatro lírico, enterros e visitas de cerimônia. No mais era constante, e isto desde cinco ou&lt;br /&gt;seis anos, que tantos eram os do casamento. Ora, naquela singular manhã de abril, acabado&lt;br /&gt;o almoço, Conrado começou a enrolar um cigarro, e Mariana anunciou sorrindo que ia&lt;br /&gt;pedir-lhe uma coisa.&lt;br /&gt;— Que é, meu anjo?&lt;br /&gt;— Você é capaz de fazer-me um sacrifício?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Dez, vinte...&lt;br /&gt;— Pois então não vá mais à cidade com aquele chapéu.&lt;br /&gt;— Por quê? é feio?&lt;br /&gt;— Não digo que seja feio; mas é cá para fora, para andar na vizinhança, à tarde ou à&lt;br /&gt;noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...&lt;br /&gt;— Que tolice, iaiá!&lt;br /&gt;— Pois sim, mas faz-me este favor, faz?&lt;br /&gt;Conrado riscou um fósforo, acendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de gracejo, para&lt;br /&gt;desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a princípio frouxa e súplice, tornou-se logo&lt;br /&gt;imperiosa e áspera. Conrado ficou espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinário, uma&lt;br /&gt;criatura passiva, meiga, de uma plasticidade de encomenda, capaz de usar com a mesma&lt;br /&gt;divina indiferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é que, tendo tido uma&lt;br /&gt;vida de andarilha nos últimos dois anos de solteira, tão depressa casou como se afez aos&lt;br /&gt;hábitos quietos. Saía às vezes, e a maior parte delas por instâncias do próprio consorte; mas&lt;br /&gt;só estava comodamente em casa. Móveis, cortinas, ornatos supriam-lhe os filhos; tinha-lhes&lt;br /&gt;um amor de mãe; e tal era a concordância da pessoa com o meio, que ela saboreava os&lt;br /&gt;trastes na posição ocupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das&lt;br /&gt;três janelas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meio aberta; nunca era outra.&lt;br /&gt;Nem o gabinete do marido escapava às exigências monótonas da mulher, que mantinha sem&lt;br /&gt;alteração a desordem dos livros, e até chegava a restaurá-la. Os hábitos mentais seguiam a&lt;br /&gt;mesma uniformidade. Mariana dispunha de mui poucas noções, e nunca lera senão os&lt;br /&gt;mesmo livros: — a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoé e o Pirata de Walter Scott,&lt;br /&gt;dez vezes; o Mot de 1'énigme, de Madame Craven, onze vezes.&lt;br /&gt;Isto posto, como explicar o caso do chapéu? Na véspera, à noite, enquanto o marido&lt;br /&gt;fora a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados, o pai de Mariana veio à casa&lt;br /&gt;deles. Era um bom velho, magro, pausado, ex-funcionário público, ralado de saudades do&lt;br /&gt;tempo em que os empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que ele,&lt;br /&gt;ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor suspeita, a solenidade da morte&lt;br /&gt;ou a gravidade da despedida última, mas por esta menos filosófica, por ser um costume&lt;br /&gt;antigo. Não dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar às duas horas, nem de&lt;br /&gt;vinte usos mais. E tão aferrado aos hábitos, que no aniversário do casamento da filha, ia&lt;br /&gt;para lá às seis horas da tarde, jantado e digerido, via comer, e no fim aceitava um pouco de&lt;br /&gt;doce, um cálice de vinho e café. Tal era o sogro de Conrado; como supor que ele aprovasse&lt;br /&gt;o chapéu baixo do genro? Suportava-o calado, em atenção às qualidades da pessoa; nada&lt;br /&gt;mais. Acontecera-lhe, porém, naquele dia, vê-lo de relance na rua, de palestra com outros&lt;br /&gt;chapéus altos de homens públicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De noite, encontrando a&lt;br /&gt;filha sozinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe o chapéu baixo como a abominação das&lt;br /&gt;abominações, e instou com ela para que o fizesse desterrar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Conrado ignorava essa circunstância, origem do pedido. Conhecendo a docilidade&lt;br /&gt;da mulher, não entendeu a resistência; e, porque era autoritário, e voluntarioso, a teima veio&lt;br /&gt;irritá-lo profundamente. Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; falou-lhe com tal&lt;br /&gt;ironia e desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Mariana quis levantar-se duas&lt;br /&gt;vezes; ele obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe levemente no pulso, a segunda&lt;br /&gt;subjugando-a com o olhar. E dizia, sorrindo:&lt;br /&gt;— Olhe, iaiá, tenho uma razão filosófica para não fazer o que você me pede. Nunca&lt;br /&gt;lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.&lt;br /&gt;Mariana mordia o lábio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e entrou a bater&lt;br /&gt;com ela devagarinho para fazer alguma coisa; mas, nem isso mesmo consentiu o marido,&lt;br /&gt;que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:&lt;br /&gt;— A escolha do chapéu não é uma ação indiferente, como você pode supor; é regida&lt;br /&gt;por um princípio metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação&lt;br /&gt;voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da&lt;br /&gt;liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem&lt;br /&gt;um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que&lt;br /&gt;ele está procurando livremente uma combinação elegante. O princípio metafísico é este: —&lt;br /&gt;o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento&lt;br /&gt;decretado ab æterno; ninguém o pode trocar sem mutilação. E uma questão profunda que&lt;br /&gt;ainda não ocorreu a ninguém. Os sábios têm estudado tudo desde o astro até o verme, ou,&lt;br /&gt;para exemplificar bibliograficamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde&lt;br /&gt;Laplace e a Mecânica celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto,&lt;br /&gt;não se lembraram ainda de parar diante do chapéu e estudá-lo por todos os lados. Ninguém&lt;br /&gt;advertiu que há uma metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória a este respeito.&lt;br /&gt;São nove horas e três quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflita&lt;br /&gt;consigo, e verá... Quem sabe? pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do&lt;br /&gt;homem, mas o homem do chapéu...&lt;br /&gt;Mariana venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada daquela&lt;br /&gt;nomenclatura áspera nem da singular teoria; mas sentiu que era um sarcasmo, e, dentro de&lt;br /&gt;si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu daí a alguns minutos, e&lt;br /&gt;parou diante dela com o famoso chapéu na cabeça. Mariana achou-lho, na verdade, torpe,&lt;br /&gt;ordinário, vulgar, nada sério. Conrado despediu-se cerimoniosamente e saiu.&lt;br /&gt;A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humilhação&lt;br /&gt;subsistia. Mariana não chorou, não clamou, como supunha que ia fazer; mas, consigo&lt;br /&gt;mesma, recordou a simplicidade do pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto&lt;br /&gt;reconhecesse que fora um pouco exigente, não achava justificação para tais excessos. Ia de&lt;br /&gt;um lado para outro, sem poder parar; foi à sala de visitas, chegou à janela meio aberta, viu&lt;br /&gt;ainda o marido, na rua, à espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpíssimo&lt;br /&gt;chapéu na cabeça. Mariana sentiu-se tomada de ódio contra essa peça ridícula; não&lt;br /&gt;compreendia como pudera suportá-la por tantos anos. E relembrava os anos, pensava na&lt;br /&gt;docilidade dos seus modos, na aquiescência a todas as vontades e caprichos do marido, e&lt;br /&gt;perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso daquela manhã.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como tantas outras, a Clara e a Sofia, por&lt;br /&gt;exemplo, que tratavam os maridos como eles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem&lt;br /&gt;metade nem uma sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou à idéia de&lt;br /&gt;sair. Vestiu-se, e foi à casa da Sofia, uma antiga companheira de colégio, com o fim de&lt;br /&gt;espairecer, não de lhe contar nada.&lt;br /&gt;Sofia tinha trinta anos, mais dois que Mariana. Era alta, forte, muito senhora de si.&lt;br /&gt;Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta lhe não dissesse nada,&lt;br /&gt;adivinhou que trazia um desgosto e grande. Adeus, planos de Mariana! Daí a vinte minutos&lt;br /&gt;contava-lhe tudo. Sofia riu dela, sacudiu os ombros; disse-lhe que a culpa não era do&lt;br /&gt;marido.&lt;br /&gt;— Bem sei, é minha, concordava Mariana.&lt;br /&gt;— Não seja tola, iaiá! Você tem sido muito mole com ele. Mas seja forte uma vez;&lt;br /&gt;não faça caso; não lhe fale tão cedo; e se ele vier fazer as pazes, diga-lhe que mude&lt;br /&gt;primeiro de chapéu.&lt;br /&gt;— Veja você, uma coisa de nada...&lt;br /&gt;— No fim de contas, ele tem muita razão; tanta como outros. Olhe a pamonha da&lt;br /&gt;Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou com um inglês que&lt;br /&gt;costumava passar a cavalo de tarde? Coitado do inglês! Naturalmente nem deu pela falta. A&lt;br /&gt;gente pode viver bem com seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos um do&lt;br /&gt;outro, sem pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo;&lt;br /&gt;temos muita harmonia. Não lhe peço uma coisa que ele me não faça logo; mesmo quando&lt;br /&gt;não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era ele que&lt;br /&gt;teimaria assim por causa de um chapéu! Tinha que ver! Pois não! Onde iria ele parar!&lt;br /&gt;Mudava de chapéu, quer quisesse, quer não.&lt;br /&gt;Mariana ouvia com inveja essa bela definição do sossego conjugal. A rebelião de&lt;br /&gt;Eva embocava nela os seus clarins; e o contato da amiga dava-lhe um prurido de&lt;br /&gt;independência e vontade. Para completar a situação, esta Sofia não era só muito senhora de&lt;br /&gt;si, mas também dos outros; tinha olhos para todos os ingleses, a cavalo ou a pé. Honesta,&lt;br /&gt;mas namoradeira; o termo é cru, e não há tempo de compor outro mais brando. Namorava a&lt;br /&gt;torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miúdo do&lt;br /&gt;amor, que ela distribuía a todos os pobres que lhe batiam à porta: — um níquel a um, outro&lt;br /&gt;a outro; nunca uma nota de cinco mil-réis, menos ainda uma apólice. Ora este sentimento&lt;br /&gt;caritativo induziu-a a propor à amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de&lt;br /&gt;outros chapéus bonitos e graves. Mariana aceitou; um certo demônio soprava nela as fúrias&lt;br /&gt;da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu&lt;br /&gt;tempo de refletir. Pois sim, iria, estava cansada de viver cativa. Também queria gozar um&lt;br /&gt;pouco, etc., etc.&lt;br /&gt;Enquanto Sofia foi vestir-se, Mariana deixou-se estar na sala, irrequieta e contente&lt;br /&gt;consigo mesma. Planeou a vida de toda aquela semana, marcando os dias e horas de cada&lt;br /&gt;coisa, como numa viagem oficial. Levantava-se, sentava-se, ia à janela, à espera da amiga.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Sofia parece que morreu, dizia de quando em quando.&lt;br /&gt;De uma das vezes que foi à janela, viu passar um rapaz a cavalo. Não era inglês,&lt;br /&gt;mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de um inglês, e&lt;br /&gt;sentiu crescer-lhe o ódio contra a raça masculina — com exceção, talvez, dos rapazes a&lt;br /&gt;cavalo. Na verdade, aquele era afetado demais; esticava a perna no estribo com evidente&lt;br /&gt;vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino. Mariana notou-lhe&lt;br /&gt;esses dois defeitos; mas achou que o chapéu resgatava-os; não que fosse um chapéu alto;&lt;br /&gt;era baixo, mas próprio do aparelho eqüestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo&lt;br /&gt;gravemente para o escritório, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.&lt;br /&gt;Os tacões de Sofia desceram a escada, compassadamente. Pronta! disse ela daí a&lt;br /&gt;pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O chapéu&lt;br /&gt;aumentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as&lt;br /&gt;formas do busto, fazia-a ainda mais vistosa. Ao pé dela, a figura de Mariana desaparecia&lt;br /&gt;um pouco. Era preciso atentar primeiro nesta para ver que possuía feições mui graciosas,&lt;br /&gt;uns olhos lindos, muita e natural elegância. O pior é que a outra dominava desde logo; e&lt;br /&gt;onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sofia para si. Este reparo seria incompleto,&lt;br /&gt;se eu não acrescentasse que Sofia tinha consciência da superioridade, e que apreciava por&lt;br /&gt;isso mesmo as belezas do gênero Mariana, menos derramadas e aparentes. Se é um defeito,&lt;br /&gt;não me compete emendá-lo.&lt;br /&gt;— Onde vamos nós? perguntou Mariana.&lt;br /&gt;— Que tolice! vamos passear à cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato;&lt;br /&gt;depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao&lt;br /&gt;dentista?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— Nem tirar o retrato?&lt;br /&gt;— Já tenho muitos. E para quê? para dá-lo "àquele senhor"?&lt;br /&gt;Sofia compreendeu que o ressentimento da amiga persistia, e, durante o caminho,&lt;br /&gt;tratou de lhe pôr um ou dois bagos mais de pimenta. Disse-lhe que, embora fosse difícil,&lt;br /&gt;ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um método para subtrair-se à tirania. Não&lt;br /&gt;convinha ir logo de um salto, mas devagar, com segurança, de maneira que ele desse por si&lt;br /&gt;quando ela lhe pusesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, três a quatro, não mais.&lt;br /&gt;Ela, Sofia, estava pronta a ajudá-la. E repetia-lhe que não fosse mole, que não era escrava&lt;br /&gt;de ninguém, etc. Mariana ia cantando dentro do coração a marselhesa do matrimônio.&lt;br /&gt;Chegaram à rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio-dia. Muita gente, andando ou&lt;br /&gt;parada, o movimento do costume. Mariana sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe&lt;br /&gt;acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu caráter e de sua vida,&lt;br /&gt;receberam daquela agitação os repelões do costume. Ela mal podia andar por entre os&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a&lt;br /&gt;variedade das lojas. Conchegava-se muito à amiga, e, sem reparar que tinham passado a&lt;br /&gt;casa do dentista, ia ansiosa de lá entrar. Era um repouso; era alguma coisa melhor do que o&lt;br /&gt;tumulto.&lt;br /&gt;— Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.&lt;br /&gt;— Sim? respondia Sofia, voltando a cabeça para ela e os olhos para um rapaz que&lt;br /&gt;estava na outra calçada.&lt;br /&gt;Sofia, prática daqueles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes com&lt;br /&gt;muita perícia e tranqüilidade. A figura impunha; os que a conheciam gostavam de vê-la&lt;br /&gt;outra vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a&lt;br /&gt;boa senhora, cheia de caridade, derramava os olhos à direita e à esquerda, sem grande&lt;br /&gt;escândalo, porque Mariana servia a coonestar os movimentos. Nada dizia seguidamente;&lt;br /&gt;parece até que mal ouvia as respostas da outra; mas falava de tudo, de outras damas que&lt;br /&gt;iam ou vinham, de uma loja, de um chapéu... Justamente os chapéus, — de senhora ou de&lt;br /&gt;homem, — abundavam naquela primeira hora da rua do Ouvidor.&lt;br /&gt;— Olha este, dizia-lhe Sofia.&lt;br /&gt;E Mariana acudia a vê-los, femininos ou masculinos, sem saber onde ficar, porque&lt;br /&gt;os demônios dos chapéus sucediam-se como num caleidoscópio. Onde era o dentista?&lt;br /&gt;perguntava ela à amiga. Sofia só à segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa;&lt;br /&gt;mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.&lt;br /&gt;— Uf! respirou Mariana entrando no corredor.&lt;br /&gt;— Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça...&lt;br /&gt;A sala do dentista tinha já algumas freguesas. Mariana não achou entre elas uma só&lt;br /&gt;cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a janela. Da janela&lt;br /&gt;podia gozar a rua, sem atropelo. Recostou-se; Sofia veio ter com ela. Alguns chapéus&lt;br /&gt;masculinos, parados, começaram a fitá-las; outros, passando, faziam a mesma coisa.&lt;br /&gt;Mariana aborreceu-se da insistência; mas, notando que fitavam principalmente a amiga,&lt;br /&gt;dissolveu-se-lhe o tédio numa espécie de inveja. Sofia, entretanto, contava-lhe a história de&lt;br /&gt;alguns chapéus, — ou, mais corretamente, as aventuras. Um deles merecia os pensamentos&lt;br /&gt;de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ela por ele, tanto que eram certos na rua do&lt;br /&gt;Ouvidor às quartas e sábados, entre duas e três horas. Mariana ouvia aturdida. Na verdade,&lt;br /&gt;o chapéu era bonito, trazia uma linda gravata, e possuía um ar entre elegante e pelintra,&lt;br /&gt;mas...&lt;br /&gt;— Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.&lt;br /&gt;Mariana fitou pensativa o chapéu denunciado. Havia agora mais três, de igual porte&lt;br /&gt;e graça, e provavelmente os quatro falavam delas, e falavam bem. Mariana enrubesceu&lt;br /&gt;muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo à primeira atitude, e afinal entrou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entrando, viu na sala duas senhoras recém-chegadas, e com elas um rapaz que se levantou&lt;br /&gt;prontamente e veio cumprimentá-la com muita cerimônia. Era o seu primeiro namorado.&lt;br /&gt;Este primeiro namorado devia ter agora trinta e três anos. Andara por fora, na roça,&lt;br /&gt;na Europa, e afinal na presidência de uma província do sul. Era mediano de estatura, pálido,&lt;br /&gt;barba inteira e rara, e muito apertado na roupa. Tinha na mão um chapéu novo, alto, preto,&lt;br /&gt;grave, presidencial, administrativo, um chapéu adequado à pessoa e às ambições. Mariana,&lt;br /&gt;entretanto, mal pôde vê-lo. Tão confusa ficou, tão desorientada com a presença de um&lt;br /&gt;homem que conhecera em especiais circunstâncias, e a quem não vira desde 1877, que não&lt;br /&gt;pôde reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta&lt;br /&gt;qualquer, e ia tornar à janela, quando a amiga saiu dali.&lt;br /&gt;Sofia conhecia também o recém-chegado. Trocaram algumas palavras. Mariana,&lt;br /&gt;impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os dentes para outro dia; mas&lt;br /&gt;a amiga disse-lhe que não; negócio de meia hora a três quartos. Mariana sentia-se opressa: a&lt;br /&gt;presença de um tal homem atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo&lt;br /&gt;culpa do marido. Se ele não teimasse e não caçoasse com ela, ainda em cima, não&lt;br /&gt;aconteceria nada. E Mariana, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memória&lt;br /&gt;contemplava a casa, tão sossegada, tão bonitinha, onde podia estar agora, como de costume,&lt;br /&gt;sem os safanões da rua, sem a dependência da amiga...&lt;br /&gt;— Mariana, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro. Você não acha&lt;br /&gt;que está mais gordo do que no ano passado?... Não se lembra dele no ano passado?&lt;br /&gt;Dr. Viçoso era o próprio namorado antigo, que palestrava com Sofia, olhando&lt;br /&gt;muitas vezes para Mariana. Esta respondeu negativamente. Ele aproveitou a fresta, para&lt;br /&gt;puxá-la à conversação; disse que, na verdade, não a vira desde alguns anos. E sublinhava o&lt;br /&gt;dito com um certo olhar triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assuntos, sacou para&lt;br /&gt;fora o teatro lírico. Que tal achavam a companhia? Na opinião dele era excelente, menos o&lt;br /&gt;barítono; o barítono parecia-lhe cansado. Sofia protestou contra o cansaço do barítono, mas&lt;br /&gt;ele insistiu, acrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, já lhe&lt;br /&gt;parecera a mesma coisa. As damas, sim, senhora; tanto o soprano como o contralto eram de&lt;br /&gt;primeira ordem. E falou das óperas, citava os trechos, elogiou a orquestra, principalmente&lt;br /&gt;nos Huguenotes... Tinha visto Mariana na última noite, no quarto ou quinto camarote da&lt;br /&gt;esquerda, não era verdade?&lt;br /&gt;— Fomos, murmurou ela, acentuando bem o plural.&lt;br /&gt;— No Cassino é que a não tenho visto, continuou ele.&lt;br /&gt;— Está ficando um bicho-do-mato, acudiu Sofia rindo.&lt;br /&gt;Viçoso gostara muito do último baile, e desfiou as suas recordações; Sofia fez o&lt;br /&gt;mesmo às dela. As melhores toilettes foram descritas por ambos com muita particularidade;&lt;br /&gt;depois vieram as pessoas, os caracteres, dois ou três picos de malícia; mas tão anódina, que&lt;br /&gt;não fez mal a ninguém. Mariana ouvia-os sem interesse; duas ou três vezes chegou a&lt;br /&gt;levantar-se e ir à janela; mas os chapéus eram tantos e tão curiosos, que ela voltava a&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios à amiga; não os ponho aqui por não&lt;br /&gt;serem necessários, e, aliás, seria de mau gosto desvendar o que esta moça pôde pensar da&lt;br /&gt;outra durante alguns minutos de irritação.&lt;br /&gt;— E as corridas do Jockey Club? perguntou o ex-presidente.&lt;br /&gt;Mariana continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido às corridas naquele ano. Pois&lt;br /&gt;perdera muito, a penúltima, principalmente; esteve animadíssima, e os cavalos eram de&lt;br /&gt;primeira ordem. As de Epsom, que ele vira, quando esteve em Inglaterra, não eram&lt;br /&gt;melhores do que a penúltima do Prado Fluminense. E Sofia dizia que sim, que realmente a&lt;br /&gt;penúltima corrida honrava o Jockey Club. Confessou que gostava muito; dava emoções&lt;br /&gt;fortes. A conversação descambou em dois concertos daquela semana; depois tomou a barca,&lt;br /&gt;subiu a serra e foi a Petrópolis, onde dois diplomatas lhe fizeram as despesas da estadia.&lt;br /&gt;Como falassem da esposa de um ministro, Sofia lembrou-se de ser agradável ao expresidente,&lt;br /&gt;declarando-lhe que era preciso casar também porque em breve estaria no&lt;br /&gt;ministério. Viçoso teve um estremeção de prazer, e sorriu, e protestou que não; depois, com&lt;br /&gt;os olhos em Mariana, disse que provavelmente não casaria nunca... Mariana enrubesceu&lt;br /&gt;muito e levantou-se.&lt;br /&gt;— Você está com muita pressa, disse-lhe Sofia. Quantas são? continuou voltando-se&lt;br /&gt;para Viçoso.&lt;br /&gt;— Perto de três! exclamou ele.&lt;br /&gt;Era tarde; tinha de ir à câmara dos deputados. Foi falar às duas senhoras, que&lt;br /&gt;acompanhara, e que eram primas suas, e despediu-se; vinha despedir-se das outras, mas&lt;br /&gt;Sofia declarou que sairia também. Já agora não esperava mais. A verdade é que a idéia de ir&lt;br /&gt;à câmara dos deputados começara a faiscar-lhe na cabeça.&lt;br /&gt;— Vamos à câmara? propôs ela à outra.&lt;br /&gt;— Não, não, disse Mariana; não posso, estou muito cansada.&lt;br /&gt;— Vamos, um bocadinho só; eu também estou muito cansada...&lt;br /&gt;Mariana teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sofia, — a pomba discutindo&lt;br /&gt;com o gavião, — era realmente insensatez. Não teve remédio, foi. A rua estava agora mais&lt;br /&gt;agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas, e complicavam-se no cruzamento&lt;br /&gt;das ruas. De mais a mais, o obsequioso ex-presidente flanqueava as duas damas, tendo-se&lt;br /&gt;oferecido para arranjar-lhes uma tribuna.&lt;br /&gt;A alma de Mariana sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa confusão de&lt;br /&gt;coisas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito, que lhe dera forças para um vôo&lt;br /&gt;audaz e fugidio, começava a afrouxar as asas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez&lt;br /&gt;recordava a casa, tão quieta, com todas as coisas nos seus lugares, metódicas, respeitosas&lt;br /&gt;umas com as outras, fazendo-se tudo sem atropelo, e, principalmente, sem mudança&lt;br /&gt;imprevista. E a alma batia o pé, raivosa... Não ouvia nada do que o Viçoso ia dizendo,&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;conquanto ele falasse alto, e muitas coisas fossem ditas para ela. Não ouvia, não queria&lt;br /&gt;ouvir nada. Só pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram à câmara e foram&lt;br /&gt;para uma tribuna. O rumor das saias chamou a atenção de uns vinte deputados, que&lt;br /&gt;restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão depressa o Viçoso pediu licença e saiu,&lt;br /&gt;Mariana disse rapidamente à amiga que não lhe fizesse outra.&lt;br /&gt;— Que outra? perguntou Sofia.&lt;br /&gt;— Não me pregue outra peça como esta de andar de um lugar para outro feito&lt;br /&gt;maluca. Que tenho eu com a câmara? que me importam discursos que não entendo?&lt;br /&gt;Sofia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos secretários.&lt;br /&gt;Muitos eram os olhos que a fitavam quando ela ia à câmara, mas os do tal secretário tinham&lt;br /&gt;uma expressão mais especial, cálida e súplice. Entende-se, pois, que ela não o recebeu de&lt;br /&gt;supetão; pode mesmo entender-se que o procurou curiosa. Enquanto acolhia esse olhar&lt;br /&gt;legislativo ia respondendo à amiga, com brandura, que a culpa era dela, e que a sua&lt;br /&gt;intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.&lt;br /&gt;— Mas, se você acha que a aborreço não venha mais comigo, concluiu Sofia.&lt;br /&gt;E, inclinando-se um pouco:&lt;br /&gt;— Olhe o ministro da justiça.&lt;br /&gt;Mariana não teve remédio senão ver o ministro da justiça. Este agüentava o discurso&lt;br /&gt;do orador, um governista, que provava a conveniência dos tribunais correcionais, e,&lt;br /&gt;incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial. Nenhum aparte; um silêncio&lt;br /&gt;resignado, polido, discreto e cauteloso. Mariana passeava os olhos de um lado para outro,&lt;br /&gt;sem interesse; Sofia dizia-lhe muitas coisas, para dar saída a uma porção de gestos&lt;br /&gt;graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a câmara, graças a uma expressão do orador&lt;br /&gt;e uma réplica da oposição. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros,&lt;br /&gt;e seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.&lt;br /&gt;Essa diversão não o foi para Mariana, cujo espírito plácido e uniforme, ficou&lt;br /&gt;atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ela chegou a levantar-se para sair;&lt;br /&gt;mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir ao fim, arrependida e resoluta a&lt;br /&gt;chorar só consigo as suas mágoas conjugais. A dúvida começou mesmo a entrar nela. Tinha&lt;br /&gt;razão no pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoável o espalhafato?&lt;br /&gt;Certamente que as ironias dele foram cruéis; mas, em suma, era a primeira vez que ela lhe&lt;br /&gt;batera o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer modo porém, fora um erro ir&lt;br /&gt;revelar tudo à amiga. Sofia iria talvez contá-lo a outras... Esta idéia trouxe um calafrio a&lt;br /&gt;Mariana; a indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de histórias de&lt;br /&gt;chapéus masculinos e femininos, coisa mais grave do que uma simples briga de casados.&lt;br /&gt;Mariana sentiu necessidade de lisonjeá-la, e cobriu a sua impaciência e zanga com uma&lt;br /&gt;máscara de docilidade hipócrita. Começou a sorrir também, a fazer algumas observações, a&lt;br /&gt;respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sofia; e Mariana concordou que&lt;br /&gt;sim, mas sem impaciência, e ambas tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua, a entrada no&lt;br /&gt;bond completaram a fadiga do espírito de Mariana, que afinal respirou quando viu que ia&lt;br /&gt;caminho de casa. Pouco antes de apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o&lt;br /&gt;que lhe contara; Sofia prometeu que sim.&lt;br /&gt;Mariana respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente dos&lt;br /&gt;encontrões, vertiginosa da diversidade de coisas e pessoas. Tinha necessidade de equilíbrio&lt;br /&gt;e saúde. A casa estava perto; à medida que ia vendo as outras casas e chácaras próximas,&lt;br /&gt;Mariana sentia-se restituída a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era&lt;br /&gt;aquele o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocara de lugar.&lt;br /&gt;— João, bota este vaso onde estava antes, disse ela.&lt;br /&gt;Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar, os seus&lt;br /&gt;quartos, tudo. Mariana sentou-se primeiro, em diferentes lugares, olhando bem para todas&lt;br /&gt;as coisas, tão quietas e ordenadas. Depois de uma manhã inteira de perturbação e variedade,&lt;br /&gt;a monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa. Na verdade,&lt;br /&gt;fizera mal... Quis recapitular os sucessos e não pôde; a alma espreguiçava-se toda naquela&lt;br /&gt;uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do Viçoso, que achava agora&lt;br /&gt;ridícula, e era injustiça. Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira a cada objeto. Uma&lt;br /&gt;vez despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou que, bem pesadas as coisas, a&lt;br /&gt;principal culpa era dela. Que diabo de teima por causa de um chapéu, que o marido usara&lt;br /&gt;há tantos anos? Também o pai era exigente demais...&lt;br /&gt;— Vou ver a cara com que ele vem, pensou ela.&lt;br /&gt;Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à sala da frente, espiou pela&lt;br /&gt;vidraça, prestou o ouvido ao bond, e nada. Sentou-se ali mesmo com o Ivanhoe nas palmas,&lt;br /&gt;querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim da página, e tornavam ao princípio,&lt;br /&gt;em primeiro lugar, porque não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou&lt;br /&gt;outra vez desviavam-se para saborear a correção das cortinas ou qualquer outra feição&lt;br /&gt;particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.&lt;br /&gt;Enfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do jardim.&lt;br /&gt;Mariana foi à vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente, olhando para a direita e a&lt;br /&gt;esquerda, com o chapéu na cabeça, não o famoso chapéu do costume, porém outro, o que a&lt;br /&gt;mulher lhe tinha pedido de manhã. O espírito de Mariana recebeu um choque violento,&lt;br /&gt;igual ao que lhe dera o vaso do jardim trocado, — ou ao que lhe daria uma lauda de&lt;br /&gt;Voltaire entre as folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desigual no meio da&lt;br /&gt;harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse chapéu. Realmente, que mania a dela&lt;br /&gt;exigir que ele deixasse o outro que lhe ficava tão bem? E que não fosse o mais próprio, era&lt;br /&gt;o de longos anos; era o que quadrava à fisionomia do marido... Conrado entrou por uma&lt;br /&gt;porta lateral. Mariana recebeu-o nos braços.&lt;br /&gt;— Então, passou? perguntou ele, enfim, cingindo-lhe a cintura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Escuta uma coisa, respondeu ela com uma carícia divina, bota fora esse; antes o&lt;br /&gt;outro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-8229492189423839389?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/8229492189423839389/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=8229492189423839389' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/8229492189423839389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/8229492189423839389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/aula-3-texto-de-abertura-captulo-dos.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-374889920025918976</id><published>2007-03-20T19:14:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T19:18:24.603-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Aula 2 - Texto de abertura - "Três tesouros perdidos"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Obtido em &lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br"&gt;www.dominiopublico.gov.br&lt;/a&gt;, acesso em 20/3/2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Três tesouros perdidos", de Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edição referência: &lt;a href="http://www2.uol.com.br/machadodeassis"&gt;http://www2.uol.com.br/machadodeassis&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicado originalmente em &lt;em&gt;A Marmota&lt;/em&gt;,  1858&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que&lt;br /&gt;levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a&lt;br /&gt;escada, penetra na sala e... dá com os olhos em um homem que passeava a largos&lt;br /&gt;passos como agitado por uma interna aflição.&lt;br /&gt;Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz&lt;br /&gt;alterada, diz-lhe:&lt;br /&gt;— Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E...&lt;br /&gt;— Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X...; mas não tenho a honra de conhecer a&lt;br /&gt;senhora Dona E...&lt;br /&gt;— Não a conhece! Não a conhece! ... quer juntar a zombaria à infâmia?&lt;br /&gt;— Senhor!...&lt;br /&gt;E o sr. X... deu um passo para ele.&lt;br /&gt;— Alto lá!&lt;br /&gt;O sr. F... , tirando do bolso uma pistola, continuou:&lt;br /&gt;— Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!&lt;br /&gt;— Mas, senhor, disse o sr. X..., a quem a eloqüência do sr. F... tinha produzido um certo&lt;br /&gt;efeito, que motivo tem o senhor?...&lt;br /&gt;— Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha&lt;br /&gt;mulher?&lt;br /&gt;— A corte à sua mulher! não compreendo!&lt;br /&gt;— Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.&lt;br /&gt;— Creio que se engana...&lt;br /&gt;— Enganar-me! É boa! ... mas eu o vi... sair duas vezes de minha casa...&lt;br /&gt;— Sua casa!&lt;br /&gt;— No Andaraí... por uma porta secreta... Vamos! ou...&lt;br /&gt;— Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo...&lt;br /&gt;— Não; não; é o senhor mesmo... como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer... Escolha!&lt;br /&gt;Era um dilema. O sr. X... compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola.&lt;br /&gt;Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.&lt;br /&gt;Surgiu, porém, uma objeção.&lt;br /&gt;— Mas, senhor, disse ele, os meus recursos...&lt;br /&gt;— Os seus recursos! Ah! tudo previ... descanse... eu sou um marido previdente.&lt;br /&gt;E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:&lt;br /&gt;— Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta&lt;br /&gt;imediatamente. Para onde vai?&lt;br /&gt;— Para Minas.&lt;br /&gt;— Oh! a pátria do Tiradentes! Deus o leve a salvamento... Perdôo-lhe, mas não volte a&lt;br /&gt;esta corte... Boa viagem!&lt;br /&gt;Dizendo isto, o sr. F... desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que&lt;br /&gt;desapareceu em uma nuvem de poeira.&lt;br /&gt;O sr. X... ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e&lt;br /&gt;ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um&lt;br /&gt;dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra&lt;br /&gt;de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo&lt;br /&gt;espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.&lt;br /&gt;No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F... para a sua chácara de&lt;br /&gt;Andaraí, pois tinha passado a noite fora.&lt;br /&gt;Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte&lt;br /&gt;bilhete:&lt;br /&gt;“Desesperado, fora de si, o sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha&lt;br /&gt;partido às oito horas.&lt;br /&gt;— Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois&lt;br /&gt;contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X..., subiu; apareceu o&lt;br /&gt;moleque.&lt;br /&gt;— Teu senhor?&lt;br /&gt;— Partiu para Minas.&lt;br /&gt;O sr. F... desmaiou.&lt;br /&gt;Quando deu acordo de si estava louco... louco varrido!&lt;br /&gt;Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:&lt;br /&gt;— Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma&lt;br /&gt;linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...&lt;br /&gt;Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-374889920025918976?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/374889920025918976/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=374889920025918976' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/374889920025918976'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/374889920025918976'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/aula-2-texto-de-abertura-trs-tesouros.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-244870250107445049</id><published>2007-03-20T17:02:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T17:06:34.241-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Aulas 3 e 4 - Esquema de CANDIDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esquema de Machado de Assis”, Antonio CANDIDO In: &lt;em&gt;Vários escritos&lt;/em&gt;. São Paulo:Rio de Janeiro:Duas Cidades: Ouro sobre azul, 2004. pp. 15-32.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;i. Autor (1918-)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ii. Obra: 9: “Esquema de M. Assis é o texto que li nas Universidades da Flórida (Gainesville) e Wisconsin (Madison), respectivamente em abril e maio de 1968”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;iii. Esquema do texto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1] (15-18) Apresentação da vida e da obra de Machado de Assis e do contraste entre as duas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[2] (18-21) Machado visto pela crítica, desde sua época (ênfase na boa linguagem) até a década de 1940 (virada filosófica e sociológica) ( exs. Citados: “Um Apólogo” (A agulha e a linha) e o episódio do almocreve (capítulo XXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[3] (22-31) Seis questões fundamentais na obra de Machado de Assis:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(23-5) O problema da identidade (exs. Cit. “O espelho” e “O alienista”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(25-6) Da relação entre o fato real e o imaginado (ex. Cit. &lt;em&gt;Dom Casmurro&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(26) Que sentido tem o ato ? (ex. Cit. &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(26-7) O tema da perfeição, da aspiração ao ato completo (ex. Cit. “Um homem célebre”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(27-8) “qual a diferença entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado ?” (exs. Cit. &lt;em&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;/em&gt;, “Singular ocorrência”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(28-31) “a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual.” (“do simples egoísmo até os extremos do sadismo e da pilhagem monetária”) (exs. Cit. &lt;em&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Quincas Borba&lt;/em&gt;, “A causa secreta”, &lt;em&gt;Esaú e Jacó&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[4] (31-2) [Conclusão]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31: “Este escrito deveria chamar-se ESQUEMA DE UM CERTO MACHADO DE ASSIS, porque descreve sobretudo o escritor subterrâneo (que Augusto Meyer localizou melhor do que ninguém), visto em diversos planos e referido a tendências posteriores da literatura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32: Procuremos [na obra de M.A.] sobretudo as situações ficcionais que ele inventou. Tanto aquelas onde os destinos e os acontecimentos se organizam segundo uma espécie de encantamento gratuito, quanto outras, ricas de significado em sua aparente simplicidade, manifestando, com uma enganadora neutralidade de tom, os conflitos essenciais do homem consigo mesmo, com os outros homens, com as classes e os grupos.”&lt;br /&gt;(exs. Cit. “A noite de Almirante”, “Dona Paula”, “Dona Benedita” e “A senhora do Galvão”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;iv. Objetivos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;v. Conceitos-chave&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vi. Fontes utilizadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vii. Metodologia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viii. Conclusões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ix. Comentários e questões&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-244870250107445049?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/244870250107445049/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=244870250107445049' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/244870250107445049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/244870250107445049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/aulas-3-e-4-esquema-de-candido-esquema.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-2887273806086274287</id><published>2007-03-12T12:43:00.000-07:00</published><updated>2007-03-12T14:15:23.364-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;CONTO 01: Pai contra mãe&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MACHADO DE ASSIS: LITERATURA E HISTÓRIA – 2007-I – Prof. Marcos Alvito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTO 01:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machado de Assis, 1906, Relíquias de Casa Velha, “Pai contra Mãe” [é de 1905]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pai contra mãe&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.&lt;br /&gt;O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.&lt;br /&gt;Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.&lt;br /&gt;Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.&lt;br /&gt;Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.&lt;br /&gt;Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.&lt;br /&gt;Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.&lt;br /&gt;Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.&lt;br /&gt;O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi--para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.&lt;br /&gt;--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que...&lt;br /&gt;Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.&lt;br /&gt;--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.&lt;br /&gt;--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.&lt;br /&gt;A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.&lt;br /&gt;Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo.&lt;br /&gt;Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.&lt;br /&gt;--Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.&lt;br /&gt;A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.&lt;br /&gt;--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?&lt;br /&gt;Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. --A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. --Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.&lt;br /&gt;Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.&lt;br /&gt;Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.&lt;br /&gt;Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.&lt;br /&gt;Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.&lt;br /&gt;--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.&lt;br /&gt;Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.&lt;br /&gt;A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.&lt;br /&gt;--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!&lt;br /&gt;Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. --Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...&lt;br /&gt;Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.&lt;br /&gt;--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.&lt;br /&gt;Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.&lt;br /&gt;--Não é preciso... --Faça favor.&lt;br /&gt;O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.&lt;br /&gt;--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.&lt;br /&gt;Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.&lt;br /&gt;A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.&lt;br /&gt;Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.&lt;br /&gt;Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.&lt;br /&gt;Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.&lt;br /&gt;Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.&lt;br /&gt;--Mas...&lt;br /&gt;Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.&lt;br /&gt;Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.&lt;br /&gt;--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras; siga!&lt;br /&gt;Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.&lt;br /&gt;--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.&lt;br /&gt;Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.&lt;br /&gt;--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra...&lt;br /&gt;Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.&lt;br /&gt;O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.&lt;br /&gt;Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.&lt;br /&gt;--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-2887273806086274287?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/2887273806086274287/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=2887273806086274287' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/2887273806086274287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/2887273806086274287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/conto-01-pai-contra-me-machado-de-assis.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38883391.post-7956395392209583725</id><published>2007-03-12T08:20:00.000-07:00</published><updated>2007-03-12T11:38:24.129-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;P R O G R A M A DO C U R S O&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MACHADO DE ASSIS: LITERATURA E HISTÓRIA&lt;/strong&gt; 2007 I - Prof. Marcos Alvito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Objetivos&lt;/strong&gt;: Sem maiores pretensões, este curso tentará ser uma primeira aproximação à obra de Machado de Assis e permitir um breve contato com a utilização da obra de Machado pelos historiadores. O procedimento será simples: leremos alguns contos e dois romances do autor, quase sempre seguidos de estudos acerca dos mesmos, isto é: utilizaremos exemplos práticos. Buscar-se-á uma intensa participação dos alunos nas leituras, debates coordenados e, por fim, na elaboração de pequenas resenhas críticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observação importante: como o ritmo de leitura é bastante intenso, recomendamos aos alunos a leitura das obras literárias ANTES do início do curso. Tão prazerosa atividade irá permitir que os debates em sala de aula sejam melhor aproveitados. Praticamente toda a obra de Machado de Assis está disponível na Internet, por exemplo no site &lt;a href="http://www.dominiopublico.org/"&gt;http://www.dominiopublico.org/&lt;/a&gt; .Eis a seqüência dos contos e romances que serão analisados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pai contra Mãe”&lt;br /&gt;“Mariana”&lt;br /&gt;“O Machete”&lt;br /&gt;“A Igreja do Diabo”&lt;br /&gt;“Conto de Escola”&lt;br /&gt;“Um Homem Célebre”&lt;br /&gt;“O Alienista”&lt;br /&gt;“Teoria do Medalhão”&lt;br /&gt;“O Espelho”&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Helena&lt;br /&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;“O Caso da Vara”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dica: Todos os 10 contos a serem analisados em aula constam da antologia organizada por John GLEDSON: &lt;em&gt;Contos: uma antologia – Machado de Assis&lt;/em&gt;. São Paulo:Companhia das Letras, 1998. Como a introdução escrita por Gledson também será lida por nós, recomendamos a compra do livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO: Lendo Machado: “Pai contra Mãe” (2 horas-aula)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNIDADE I: Introdução à obra de Machado de Assis (6 horas-aula)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNIDADE II: Contos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNIDADE III: &lt;em&gt;Helena&lt;/em&gt;: paternalismo e escravidão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNIDADE IV: &lt;em&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;/em&gt; e as contradições da sociedade brasileira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conclusão: “O Caso da Vara”, Machado e o deus Jano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;TRABALHOS OBRIGATÓRIOS&lt;/strong&gt;:&lt;br /&gt;- Pelo menos duas resenhas de &lt;strong&gt;até&lt;/strong&gt; quatro páginas (Arial 12, espaço 1,5), da seguinte maneira: uma resenha sobre um conto e outra sobre um romance de Machado de Assis. As resenhas deverão ser entregues no dia do debate coordenado correspondente àquele texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ORIENTAÇÃO ACERCA DOS DEBATES COORDENADOS&lt;/strong&gt;:&lt;br /&gt;Os grupos encarregados de coordenar os debates serão compostos por, no máximo, 3 alunos. O grupo terá 40 minutos para apresentar a estrutura e os pontos centrais do texto e 10 minutos para levantar as questões mais importantes. Os 50 minutos restantes serão utilizados para debate. Os grupos poderão preparar material complementar: fontes primárias de diversos tipos, inclusive música e literatura; breves extratos de outros autores (p.ex. que discordem do autor em questão). Este material deverá ser distribuído à turma, não se tratando de um trabalho escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEBATEDORES&lt;/strong&gt;: Cada debate coordenado, além do grupo responsável, terá 4 debatedores que falarão na 2a. parte da aula, abrindo o debate. Cabe ao debatedor sobretudo levantar mais questões além daquelas já colocadas pelo grupo. Ele terá no máximo 5 minutos, não se trata de mais uma exposição, o propósito é o de alimentar o debate. Eventualmente o debatedor poderá trazer um material complementar, seja fonte literária seja um outro texto teórico. Mas deverá respeitar os 5 minutos para que toda a turma possa participar do debate.&lt;br /&gt;Avaliação: Levarei em conta o conjunto da participação do aluno, que engloba: presença, participação nos debates coordenados e elaboração das resenhas.&lt;br /&gt;Blog do curso: &lt;a href="http://www.200701machado.blogspot.com"&gt;www.200701machado.blogspot.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA BÁSICA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ASSIS, Machado.&lt;br /&gt;(2006) &lt;em&gt;Obra Completa em três volumes&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro:Nova Aguilar.11.ed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CALDWELL, H.&lt;br /&gt;(1960) &lt;em&gt;The Brazilian Othello of Machado de Assis: a study of Dom Casmurro&lt;/em&gt;. Berkeley:Los Angeles, University of California Press.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANDIDO, Antonio&lt;br /&gt;(2004) “Esquema de Machado de Assis”, in: &lt;em&gt;Vários escritos&lt;/em&gt;. São Paulo:Rio de Janeiro, Duas Cidades:Ouro sobre Azul.pp. 15-32.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CHALHOUB, Sidney&lt;br /&gt;(2004) &lt;em&gt;Machado de Assis: historiador&lt;/em&gt;. São Paulo, Companhia das Letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________ e PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda (Orgs.)&lt;br /&gt;(1998) &lt;em&gt;A História Contada: capítulos de História Social da Literatura no Brasil&lt;/em&gt;. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FAORO, Raymundo&lt;br /&gt;(2001) &lt;em&gt;Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio&lt;/em&gt;. São Paulo, Globo.4.ed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GLEDSON, John&lt;br /&gt;(1991) &lt;em&gt;Machado de Assis: impostura e realismo&lt;/em&gt;. São Paulo, Companhia das Letras.&lt;br /&gt;(2004) &lt;em&gt;Ficção e História&lt;/em&gt;. São Paulo, Paz e Terra.&lt;br /&gt;(2006) &lt;em&gt;Por um novo Machado de Assis: ensaios&lt;/em&gt;. São Paulo, Companhia das Letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SCHWARCZ, Roberto&lt;br /&gt;(1981) &lt;em&gt;Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro&lt;/em&gt;. São Paulo, Duas Cidades.&lt;br /&gt;(2000) &lt;em&gt;Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis&lt;/em&gt;. São Paulo, Duas Cidades:Editora 34.4.ed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;WISNIK, José Miguel&lt;br /&gt;(2004) “Machado Maxixe: o caso Pestana”, in: &lt;em&gt;Sem receita: ensaios e canções&lt;/em&gt;. São Paulo, Publifolha.pp.15-105.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CRONOGRAMA DE LEITURAS DO CURSO&lt;/strong&gt; Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 01&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;13/3&lt;br /&gt;APRESENTAÇÃO: “Pai contra Mãe”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 02&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;15/3&lt;br /&gt;Idem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 03&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;20/3&lt;br /&gt;CANDIDO,Antonio. “Esquema de Machado de Assis” em Vários Escritos, pp. 15-32&lt;br /&gt;Debate coordenado pelo professor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 04&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;22/3&lt;br /&gt;Idem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 5&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;27/3&lt;br /&gt;GLEDSON,John “A machete e o violoncelo: introdução a uma antologia dos contos de Machado de Assis”&lt;br /&gt;Debate coordenado pelo professor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;29/3&lt;br /&gt;“Mariana”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 7&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;03/4&lt;br /&gt;“Mariana” + CHALHOUB,S. “Escravidão e cidadania: a experiência histórica de 1871”, Capítulo 4 de Machado de Assis, Historiador&lt;br /&gt;DEBATE COORDENADO 01&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 8&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;10/4&lt;br /&gt;“O machete”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 9&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;12/4&lt;br /&gt;“A Igreja do Diabo”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 10&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;17/4&lt;br /&gt;“Conto de escola”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 11&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;19/4&lt;br /&gt;“Conto de escola” + GLEDSON,John, “'Conto de escola': uma lição de história”, In: Por um novo Machado de Assis&lt;br /&gt;DEBATE COORDENADO 02&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 12&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;24/4&lt;br /&gt;“Um homem célebre”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 13&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;26/4&lt;br /&gt;“Um homem célebre” + Lundus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 14&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;03/5&lt;br /&gt;“Um homem célebre” + WISNIK,J.M. “Machado Maxixe: o caso Pestana” In: Sem receita. Ensaios e Canções.&lt;br /&gt;DEBATE COORDENADO 03&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 15&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;08/5&lt;br /&gt;“O alienista”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 16&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;10/5&lt;br /&gt;“O alienista”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 17&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;15/5&lt;br /&gt;“O alienista”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 18&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;17/5&lt;br /&gt;“Teoria do medalhão”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 19&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;22/5&lt;br /&gt;“O espelho”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 20&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;24/5&lt;br /&gt;Helena&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 21&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;29/5&lt;br /&gt;Helena&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 22&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;31/5&lt;br /&gt;Helena&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 23&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;05/6&lt;br /&gt;CHALHOUB,S. “Paternalismo e escravidão em Helena”, Capítulo 1 de Machado de Assis: Historiador&lt;br /&gt;DEBATE COORDENADO 04&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 24&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;12/6&lt;br /&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 25&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;14/6&lt;br /&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 26&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;19/6&lt;br /&gt;Memórias Póstumas de Brás Cubas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 27&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;21/6&lt;br /&gt;SCHWARCZ,R. Um mestre na periferia do capitalismo&lt;br /&gt;DEBATE COORDENADO 05&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 28&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;26/6&lt;br /&gt;Idem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 29&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;28/6&lt;br /&gt;“O caso da vara”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aula 30&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;03/7&lt;br /&gt;AVALIAÇÃO DO CURSO pelos alunos&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38883391-7956395392209583725?l=200701machado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://200701machado.blogspot.com/feeds/7956395392209583725/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38883391&amp;postID=7956395392209583725' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/7956395392209583725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38883391/posts/default/7956395392209583725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://200701machado.blogspot.com/2007/03/p-r-o-g-r-m-do-c-u-r-s-o-machado-de.html' title=''/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
